E pera declaração
desta obra santa et cetra...,
quisera dizer quem são
as figuras que virão
por se entender bem a letra.
                                            Gil Vicente
  ... em  Romagem dos Agravados.
Gil Vicente
   Renascença e Reforma - Líderes políticos e ideólogos - Ideologia e História da Europa
Online desde 2008 - Investigação actualizada sobre as obras de Gil Vicente.
Retórica e Drama - Arte e Dialéctica
Teatro 1502-1536
o projecto
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Cartas e Trovas de Gil Vicente

        De Gil Vicente a el rei dom João terceiro do nome, de gloriosa memória, porque na tornada de Coimbra a Santarém lhe levaram uns castelhanos almocreves d’aluguer quanto trazia, porque a rainha nossa senhora mandou que aos castelhanos não tomassem bestas por taxa, mas polo preço que eles quisessem.

A quién contaré mis quexas
gran señor
a quién contaré mis quexas
si a vos no?


A Santarém cheguei eu
bem tal como Deos naceu
que nam trouxe lá do céu
consigo um vintém de seu.

E pois tanto bem vos deu
alto senhor
a quién contaré mis quexas
si a vos no?


Castelhanos me trouxeram
e levaram quanto tinha
porque Deos e a rainha
diz que os favoreceram.

Tam grande golpe me deram
com favor
que no contaré mis quexas
si a vos no.


E por mais desaventura
além do muito dinheiro
fui eu de bom cavaleiro
e caí d’albardadura.

Ai de mi que estou em cura.
Ó senhor
a quién contaré mis quexas
si a vos no?


Fernão d’Álvares me seria
grande saúde e sossego
e no bispo de Lamego
queria eu a portaria.

E se passa deste dia
morto so
porque no conto mis quexas
si a vos no.


          De Gil Vicente ao conde do Vimioso, a quem o el rei remeteu sobre um despacho seu.
Foi isto em tempo de peste e o primeiro rebate dele deu por sua casa, e andava entam na corte um Gonçalo de Ayola castelhano muito falador e medrava muito.
Senhor, a longa esperança
mui curto prazer ordena
minha vida está em balança
e a muita confiança
nunca causou pouca pena.

Isto digo
polo que passo comigo
polo tempo que se passa
vejo minha morte em casa
e minha casa em perigo.


Certo é nobre senhor
que quis Deos ou a fortuna
que quem serve com amor
quanto maior servidor
tanto menos importuna.

Daqui vem
que quem nam pede nam tem
e quem espera padece
e quem nam parece esquece
porque nam lembra a ninguém.


Muito debaixo da sola
trouxera quanto desejo
s’eu aprendera na escola
onde Gonçalo d’Ayola
aprendeu tanto despejo.

Que o sesudo
deste tempo fala tudo
quer vá torto quer dereito
e tornando a meu respeito
pera mi sempre fui mudo.


Agora trago antre os dedos
ua farsa mui fermosa
chamo-a a Caça dos Segredos
de que ficareis mui ledos
e minha dita ouciosa.

Que o medrar
se estevera em trabalhar
ou valera o merecer
eu tivera que comer
e que dar e que deixar.


Porém por cima de tudo
o meu despacho queria
porque minha fantesia
ocupa o mais do estudo
todo em vossa senhoria.

E o cuidado
quando anda assi ocupado
cuida muito e nam faz nada
a vontade acho dobrada
mas o spírito cansado.
        Afonso Lopes Sapaio, cristão-novo que vivia em Tomar, fez um rifão que andava no cancioneiro português, ao qual rifão fizeram muitos muitas trovas e boas. Pediu o conde do Vimioso a Gil Vicente que fizesse também, e ele fez esta trova. Diz o rifão:
Matou-me moura e nam mouro
e quem m’a lançada deu
moura ela e mouro eu.


A moura que deu ferida
a quem nunca foi ferido
nem se viu em arroído
deve ser moura fengida
pois matou cristão fengido.

Bem sei que morres ferido
da ferida que sei eu
porém com faca se deu.
        De Gil Vicente ao mesmo Afonso Lopes, estando em Santarém muito doente de câmaras.
Senhor, eu ia-vos ver
pera vos ver e ouvir
e eu ouvi-vos gemer
um gemer e espremer
com’arremedar parir.

Eram câmaras sem telhas
pera vós agastadiças
vós cagado at’às orelhas
as vossas calças vermelhas
tínhei-las por corrediças.


Vosso cu com surdos brados
apupava a seus vezinhos
que estavam dependurados
um deles por seus pecados
cercearam-lh’os focinhos.

Diz que tínheis tal desmaio
na tripa do cagalar
que vos disse o mês de Maio:
milhor vos fora Sapaio
que cagáreis em Tomar.
Outras
Pois vosso negro bespeiro
se vaza no mês de Maio
Afonso Lopes Sapaio.


Que quem tem vida guaiada
coma vós da vossa sorte
por vós é cousa provada
que quem tem vida cagada
cagada há de ser a morte.

Quando vierdes à corte
se o cu vos der desmaio
dai-o ò demo Sapaio.


Tomareis destes vasculhos
que pintam polas paredes
uns à vela outros já vedes
e tapai esses angulhos
[ falta um verso... ]
assi que o pousadeiro
que vos pôs em tal desmaio
se o quereis vedar Sapaio.
- Livros publicados no âmbito desta investigação, da autoria de Noémio Ramos:

(2017)  - Gil Vicente, Aderência do Paço, ...da Arcádia ao Paço.
(2017)  - Gil Vicente, Frágua de Amor, ...a mercadoria de Amor.
(2017)  - Gil Vicente, Feira (das Graças), ...da Banca Alemã (Fugger).
(2017)  - Gil Vicente, Os Físicos, ...e os amores d'el-rei.
(2017)  - Gil Vicente, Vida do Paço, ...a educação da Infanta e o rei.
(2017)  - Gil Vicente, Pastoril Português, Os líderes na Arcádia.
(2017)  - Gil Vicente, Inês Pereira, As Comunidades de Castela.
(2017)  - Gil Vicente, Tragédia Dom Duardos, O príncipe estrangeiro.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Quatro Tempos, Triunfo do Verão - Sagração dos Reis Católicos.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Reis Magos, ...(festa) Cavalgada dos Reis.
(2014)  - Gil Vicente, Auto Pastoril Castelhano, A autobiografia em 1502.
(2012)  - Gil Vicente, Tragédia de Liberata, do Templo de Apolo à Divisa de Coimbra.
(2012)  - Gil Vicente, O Clérigo da Beira, o povo espoliado - em pelota.
(2010)  - Gil Vicente, Carta de Santarém, 1531 - Sobre o Auto da Índia.
             - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura" 
(2ª Edição, 2017)
(2010)  - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura".
(2010)  - Gil Vicente, Auto da Visitação. Sobre as origens.
(2008)  - Gil Vicente e Platão - Arte e Dialéctica, Íon de Platão.
             - Gil Vicente, Auto da Alma, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II... 
(2ª Edição, 2012)
(2008)  - Auto da Alma de Gil Vicente, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II...

- Outras publicações:
(2003) - Francês - Português, Dicionário do Tradutor. - Maria José Santos e A. Soares.
(2005) - Os Maios de Olhão e o Auto da Lusitânia de Gil Vicente. - Noémio Ramos.

  (c) 2008 - Sítio dedicado ao Teatro de Gil Vicente - actualizado com o progresso nas investigações.

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O Teatro de Gil Vicente
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