E pera declaração
desta obra santa et cetra...,
quisera dizer quem são
as figuras que virão
por se entender bem a letra.
                                            Gil Vicente
  ... em  Romagem dos Agravados.
Gil Vicente
   Renascença e Reforma - Líderes políticos e ideólogos - Ideologia e História da Europa
Online desde 2008 - Investigação actualizada sobre as obras de Gil Vicente.
Retórica e Drama - Arte e Dialéctica
Teatro 1502-1536
o projecto
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Preâmbulo da Compilação
Carta de Gil Vicente a el-rei João III de Portugal
     O texto do Preâmbulo de Gil Vicente que integra a Copilaçam de 1562, tem a data provável de 1536, e constitui uma pequena grande obra de retórica.
     Este preâmbulo não se concretizou. A sua Obra Completa não foi (então) ainda publicada! Mas, será verdade que Gil Vicente não tenha completado o trabalho a que se propôs? Pois, o facto é que ele próprio afirma: Por cujo serviço trabalhei a compi­lação delas com muita pena de minha velhice e glória de minha vontade.
     Teria escrito a carta - Preâmbulo - antes de realizar o trabalho?
     Ou teria mesmo realizado o seu trabalho de compilação, como afirma, e escrito a carta a esse propósito para entregar a Copilaçam ao Rei, então chefe da Inquisição - por­que o Preâmbulo é uma carta - e, se de facto completou o trabalho, o que pelo con­teúdo da carta nos parece ter acontecido, e se os seus textos foram entregues ao rei para depois seguirem para impressão?
[Noémio Ramos, 2008, in Gil Vicente e Platão - Arte e Dialéctica, Íon...]
el-rei Joao iii
Texto da carta preâmbulo

   
    Os livros das obras que escritas vi sereníssimo senhor, assim em metro como em prosa, são tão florescidas de cientes matérias, de graciosas invenções, de doces eloquências e elegâncias, que temendo a pobreza de meu engenho - porque nasceu e vive sem possuir nenhuma destas - determinava deixar minhas misérrimas obras por imprimir, porque os antigos e modernos não deixaram cousa boa por dizer, nem invenção linda por achar, nem graça por descobrir. Assim que para passar seguro da pena que minha ignorância padecer não escusa, me fora formosa guarida não dizer senão o que eles disseram, ainda que eu ficasse como eco - nos vales - que fala o que dizem, sem saber o que diz.
        Porém querendo eu no presente preâmbulo ajudar-me do seu costumado estilo em querer louvar as excelências de Vossa Alteza como eles fazem aos senhores a quem suas obras endereçam… Que farei?
        Sendo certo que ainda que fosse em mim só a sua oratória tão fecunda como em todos eles e me fosse transpassado o espírito de David, não presumiria escrever de Vossa Alteza a mínima parte de sua magnífica bondade, de sua nobilíssima condição, de sua discreta mansidão, do perfeito zelo de sua justiça, da sua paz, da sua guerra, da sua graça, gravidade, conselho, sabedoria, liberalidade, prudência, e finalmente do seu Cristianíssimo firmamento.
        Outrossim querendo navegar pela rota do seu exórdio deles, pedindo a Vossa Alteza favor e amparo, para que minha enferma escrita não seja ferida de línguas danosas… Parece-me injusta oração pedir tão alto esteio para tão baixo edifício, quanto mais que ainda que digno fora de tão nobre amparo, tenho considerado que Cristo filho de Deus sob amparo de poderio eterno do Padre e todos seus bem aventurados Santos não passaram por esta vida tão livres, que dos malditos detractores não fossem julgadas suas divinas obras, por humanas leviandades; sua santa doutrina, por máxima ignorância; sua manifesta bondade, por falsa malícia; sua santíssima graça, por sub-reptício engano; sua excelsa abstinência, por vil hipocrisia; sua celeste pobreza, por terreno vício. Pois rústico peregrino de mim, que espero eu? Livro meu, que esperas tu? Porém te rogo que quando o ignorante malicioso te repreender, que lhe digas: Se meu Mestre aqui estivera, tu calaras.
       Finalmente que por escusar estas batalhas e por outros respeitos, estava sem propósito de imprimir minhas obras se Vossa Alteza mo não mandara, não por serem dignas de tão esclarecida lembrança, mas Vossa Alteza haveria respeito a serem muitas delas de devoção, e a serviço de Deus endereçadas, e não quis que se perdessem, como quer que cousa virtuosa por pequena que seja não lhe fica por fazer… Por cujo serviço trabalhei a compilação delas com muita pena de minha velhice e glória de minha vontade, que foi sempre mais desejosa de servir a Vossa Alteza que cobiçosa de outro nenhum descanso.


   
Comentário


      Acreditamos que Gil Vicente estava ciente que a sua modéstia, assim como a sua grande humildade, apenas lhe serviam para encobrir um ilimitado orgulho pelo seu trabalho, sabemo-lo pelo seu maio - Todo-o-Mundo e Ninguém, - pelo cons­tante dilema em que vive a sua consciência, exposta naquelas figuras para a leitu­ra dos clérigos inquisidores Dinato e Berzabu no Auto da Lusitânia, sabemo-lo também pelo seu filósofo com o parvo atado ao pé, onde a sua consciência se fi­gura naquele par encadeado de Floresta de Enganos e, por laços firmes, ligado ao serviço da Corte portuguesa, e sabemo-lo ainda por esta mesma Carta preâmbulo, quando o autor respondendo à sua pergunta retórica: Livro meu, que esperas tu? (diz) Porém te rogo que quando o ignorante malicioso te repreender, que lhe digas: Se meu Mestre aqui estivera, tu calaras! Pois, ele bem sabia que esta carta resul­taria numa tremenda ironia e, por isso volta a sublinhar que: estava sem propósito de imprimir minhas obras se Vossa Alteza mo não mandara, não por serem dignas de tão esclarecida lembrança, mas Vossa Alteza haveria respeito a serem muitas delas de devoção, e a serviço de Deus endereçadas, e não quis que se perdessem, como quer que cousa virtuosa por pequena que seja não lhe fica por fazer… Di­zendo assim, claramente, que quem considerava as suas obras serem muitas delas de devoção, e a serviço de Deus endereçadas, era el-rei João III de Portugal e, pela manifesta ironia, nunca o autor delas.

      Contudo, a obra teatral de Gil Vicente adquire ainda uma maior importância, universal - porque um caso único (?) - por toda ela consistir numa representação da História da Europa do seu tempo (1502-1536), formulada na própria sequência do desenrolar dos factos e das ideias, pelos mais destacados feitos sociais e huma­nos, percorrendo o desenvolver da cultura da sua época, distanciando-se o autor para observar pelo lado de fora, vendo acima e por cima dos acontecimentos, como de facto deve fazer um artista, como o realizador e criador de uma permanente reportagem que interpreta em cada momento a situação política, económica e social, nas suas relações com as ideologias em curso de desenvolvimento, retirando da sua análise lições universais sobre o comportamento humano, quer na sua relação com as ideologias, quer no uso do poder, quer na relação deste com os homens e a hu­manidade, quer ainda nas relações políticas e sociais entre os homens e as Nações ou entre elas, quer nas mais simples e humildes atitudes humanas, e condensando tudo isso nas suas obras, oferecendo-nos a tremenda complexidade das ideias em curso frente à situação política, social e humana, sempre figurada do modo mais simples. Onde em cada peça se apresenta a unidade de uma nova invenção, sempre diferente da peça antecedente e sempre enraizada na realidade da luta ideológica, política e social que lhe serve de fundamento.

    Texto extraído do Prefácio de "Gil Vicente, O Clérigo da Beira, o povo espoliado - em pelota" de Noémio Ramos.




- Livros publicados no âmbito desta investigação, da autoria de Noémio Ramos:

(2017)  - Gil Vicente, Aderência do Paço, ...da Arcádia ao Paço.
(2017)  - Gil Vicente, Frágua de Amor, ...a mercadoria de Amor.
(2017)  - Gil Vicente, Feira (das Graças), ...da Banca Alemã (Fugger).
(2017)  - Gil Vicente, Os Físicos, ...e os amores d'el-rei.
(2017)  - Gil Vicente, Vida do Paço, ...a educação da Infanta e o rei.
(2017)  - Gil Vicente, Pastoril Português, Os líderes na Arcádia.
(2017)  - Gil Vicente, Inês Pereira, As Comunidades de Castela.
(2017)  - Gil Vicente, Tragédia Dom Duardos, O príncipe estrangeiro.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Quatro Tempos, Triunfo do Verão - Sagração dos Reis Católicos.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Reis Magos, ...(festa) Cavalgada dos Reis.
(2014)  - Gil Vicente, Auto Pastoril Castelhano, A autobiografia em 1502.
(2012)  - Gil Vicente, Tragédia de Liberata, do Templo de Apolo à Divisa de Coimbra.
(2012)  - Gil Vicente, O Clérigo da Beira, o povo espoliado - em pelota.
(2010)  - Gil Vicente, Carta de Santarém, 1531 - Sobre o Auto da Índia.
             - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura" 
(2ª Edição, 2017)
(2010)  - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura".
(2010)  - Gil Vicente, Auto da Visitação. Sobre as origens.
(2008)  - Gil Vicente e Platão - Arte e Dialéctica, Íon de Platão.
             - Gil Vicente, Auto da Alma, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II... 
(2ª Edição, 2012)
(2008)  - Auto da Alma de Gil Vicente, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II...

- Outras publicações:
(2003) - Francês - Português, Dicionário do Tradutor. - Maria José Santos e A. Soares.
(2005) - Os Maios de Olhão e o Auto da Lusitânia de Gil Vicente. - Noémio Ramos.

  (c) 2008 - Sítio dedicado ao Teatro de Gil Vicente - actualizado com o progresso nas investigações.

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O Teatro de Gil Vicente
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