Retórica e Drama - Arte e Dialéctica
Gil Vicente
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Teatro 1502-1536
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Sobre o "Auto dos Quatro Tempos"

Gil Vicente, Auto dos Quatro Tempos,
Triunfo do Verão - Sagração dos Reis Católicos

ISBN: 978-989-97749-9-5 - Depósito Legal (BNP): 408131/16
Gil Vicente, Auto dos Quatro Tempos,
Triunfo do Verão - Sagração dos Reis Católicos


Publica-se a peça - e informação mais geral sobre as obras de Gil Vicente, - com uma análise substancial do texto da peça, bem como uma descrição dos acontecimentos que se representam.

Fontes formais de origem italiana (...de Leonardo da Vinci, Festa del Paradiso, "representada" em 1490 ao duque de Milão, Ludovico il Moro).

      Para Gil Vicente esta é a última peça da sua auto aprendizagem. A variedade do conjunto das quatro peças, o ritmo dado pela sua continuidade e pela sucessão dos episódios de cada uma, assim como o suporte comum das cenas do presépio do segundo ao quarto auto, dão ao conjunto uma unidade onde se evidencia melhor o triunfo final de uns em confronto com o infortúnio de outros, sobretudo visível na semelhança entre as desventuras e a desdita dos infortunados.
      Em Pastoril Castelhano verificámos os vestígios de uma pesquisa de recursos realizada por Gil Vicente para representar um auto de Natal, nomeadamente Lucas Fernández, que como demonstrámos não o impediram de criar uma outra coisa, mais próxima da Poética e do conceito de tragédia de Aristóteles.
      Em Quatro Tempos verificámos que Gil Vicente pode ter encontrado um texto com algum suporte para uma geografia global do Planeta, que seria o que então se havia escrito de mais abrangente sobre a Terra (Mundo), foi El Libro de Proprietatibus Rerum, de Bartholomaeus Anglicus, traduzido por frei Vicente de Burgos, em Enciclopédia de Anglicus. Outras fontes literárias fazem parte da sua formação, bem mais importantes, dizem respeito à informação sobre as mitologias, em especial a grega e a romana, largamente presentes na peça, exactamente com a finalidade de evocar um alargar do Poder a um novo Deus, - Jesus Apolo, filho do Todo-Poderoso Júpiter - o Deus dos actuais dos príncipes da terra (Reis Católicos), governador de todo o universo de deuses alcançado pela cultura do homem universal, vitruviano.
      Uma das diferenças que esta última peça vem acrescentar ao conjunto da primeira fase do trabalho publicado de Gil Vicente, é o alargamento envolvente das nações e instituições que, defronte do Poder da Península Ibérica, e em confronto com a Espanha, pretendem assegurar o seu espaço e um lugar aos seus povos da Europa no contexto do alargamento do Mundo conhecido.
      Embora o desejo de Poder pretenda alcançar todo o Mundo, como o Tratado de Alcáçovas (1479) e o Tratado de Tordesilhas (1494) o haviam demonstrado, no momento e de perto, na Europa há apenas uma nação que desafia o Poder instituído pelos Reis Católicos (como poder universal), a França; e há uma nação na Europa que sofre os efeitos dos desafios e lutas pelo Poder na Europa: a Itália. Como veremos, a ideia da Itália como uma nação unificada está sempre presente em muitas das obras de Gil Vicente e não apenas nesta, onde Júpiter, Júlio II, surge mais como apoiante na luta contra a França do que como esperança de mudança.
      ( ...)
Leitura do mythos

      Para a leitura do mythos deste peça, seus conteúdo e significados, torna-se necessário conhecer um pouco da história de Espanha e de Portugal da época, em especial a sua conjuntura política na sua relação com o poder Papal e o domínio político da Espanha na Europa.
      As quatro primeiras peças de Gil Vicente marcam um final na independência da realeza portuguesa, digamos que, o princípio do fim de uma tragédia nacional, que se dá com a dispersão e o êxodo de um saber acumulado por cartógrafos, cosmógrafos e navegadores, portugueses e estrangeiros que estão a trabalhar em Portugal, um facto que vem sucedendo mesmo ainda antes da morte de el-rei João II de Portugal. Esta peça, está na continuidade do que o autor vem apontando, e com ela fecha-se o drama iniciado com Visitação. Assim, Quatro Tempos é o último capítulo de uma sequência, que pretende representar o remate da desdita de Portugal perante o triunfo de Isabel de Castela (o triunfo dos Reis Católicos), figurando de facto uma muito lúcida leitura da realidade da época realizada pelo autor dos autos.
      O poeta, na sua invenção, melhor que o historiador nos transmite a História, como diz Aristóteles, e numa tragédia o infortúnio de uns, sucede com o triunfo de outros. Em termos de Arte, uma tragédia constitui-se por via de uma acumulação de acções humanas (pelas suas figuras), que se traduzem em sequências de acontecimentos (formulados em episódios), que ao alcançar o seu desfecho, se concluem pelo sucesso de uns em confronto com a desgraça dos outros. Nesta peça os acontecimentos em causa são de um passado muito recente, manifestando cada uma das personagens o seu próprio sentir, pois sublinhamos: como no teatro clássico o sucedido não se apresenta em cena, senão que se evocam as suas consequências. Neste conjunto das primeiras quatro peças a desdita de uns (Portugal: Lucas, Gregório, Inverno) sucede ou confronta-se com a glória de outros (Espanha: Valério, Ermitão, Verão), ainda que as figuras em cada peça, como protagonistas das (decisões) acções, as possam ter (tomado) realizado na melhor das intenções - ou mesmo casualmente - elas não se podem isentar da responsabilidade: em serem eles a causa do desfecho final. Em Quatro Tempos: um desfecho em infortúnios para Portugal perante o sucesso glorioso da Espanha.
      Tenhamos presente que Gil Vicente não se repetirá, não iremos encontrar repetições de temas no conjunto das suas obras, ainda que o mythos de suporte possa ser muito semelhante. Esta peça não trata temáticas de educação ou sentido religioso ou doutrinal, e está na sequência das peças anteriores. Quatro Tempos é a última peça da sequência, é o culminar de um tema caro ao autor, a situação política de descalabro do seu país, a tragédia do Poder em Portugal…
      Porém, é ao mesmo tempo e sobretudo, o Triunfo do Poder representado pelos Reis Católicos, mais exactamente por Isabel, a rainha triunfante: Os príncipes da terra foram os Deuses dela e esses o são agora (Joao de Barros, em Ropicapnefma, 1531). É esta a essência da mensagem de Júpiter, mas a personagem em si mesmo, traz outros primores: O Triunfo do Verão (Primavera).
      A peça exalta o novo Poder na Europa e o seu Triunfo na conjugação do Poder político e do Poder divino, da identificação do novo Poder com o Poder divino, que domina o Estado e a Igreja, tal como noutros tempos, se identificava o rei ou o Faraó com o deus, resulta aqui numa Sagração do Verão (da Primavera).
      O Triunfo dos Reis Católicos é um triunfo pagão, como seria o de Júpiter, tal como no auto se faz sentir: os príncipes da terra foram os Deuses dela e esses o são agora. Pensamos nós ser este o sentido e o tema do auto. Todo o Universo a seus pés, aos pés dos Reis Católicos.
      (...)
      Esta peça destaca-se por celebrar um Triunfo: a homenagem dos vencedores. Talvez por isso o texto seja em grande parte para recitação (como que cantando). Numa manifestação plena de ironia - não somente pelo facto de Portugal estar figurado na peça na personagem do Inverno, como pelas suas lamentações de infortúnio - os homenageados podem não estar junto do presépio, mas estará a Família Real portuguesa figurando os Reis Católicos, são os figurantes fundamentais. Na época terão sido os reis de Portugal a figurar os Reis Católicos, eles são os representantes de Deus na Terra, também eles, como os figurados, substituindo as velhas mitologias, gregas e romanas, clássicas ou outras, estabelecem um novo Poder no Mundo.
      Dito pelo Serafim, ao mesmo tempo que exalta o nascimento do menino:
      Nuevo gozo, nueva gloria / criada en el seno eterno / es llegada, / gran mudanza, gran vitoria / por nuestro Dios sempiterno / nos es dada. / La clara luz anciana / mudada, hecha moderna, / en nuevo traje, / y la bondad soberana / se alegra en la edad tierna / sin ultraje.
      Contudo, será Júpiter a confirmar, após anunciar a adoração dos deuses da antiguidade, ao novo Deus, que conclui afirmando:
      Todos van hoy adorar / al criador poderoso / que es nacido: / las aves con su cantar, / y el ganado selvinoso / con bramido. / Los salvajinos bestiales / con olicorne pandero / dan loores, / y los brutos animales / adoran aquel cordero / y los pastores. Não podendo afirmar que os pastores (figurantes dos Reis Católicos, junto do altar) são adorados, diz: os animais selvagens adoram aquele cordeiro e os pastores, guardando para sua defesa a afirmação que os pastores também adoram aquele cordeiro.
      No final, Manuel I, figurado na representação por David, submete-se ao novo Poder, dizendo: Sacrificium Deo es / el spíritu atribulado / y el corazón contrito / el cual pido que me des / andando con mi ganado / por el tu poder bendito.

      Na peça os quatro Tempos são figurações das nações: (1) o Inverno é Portugal; (2) o Verão a Espanha; (3) o Estio a Itália; e (4) o Outono é a França. No seu ciclo, os Tempos pertencem agora à Espanha, celebra-se nesta peça o Triunfo do Verão. Em 1529 será então celebrado o mesmo triunfo da Espanha, com Carlos V logo após as suas vitórias em Itália, a celebração da paz com o Papa e a França, depois assinada pelas damas (Luísa de Sabóia e Margarida de Habsburgo) em Cambrai a 3 de Agosto, mas pelo Triunfo do Inverno e, com extrema ironia Gil Vicente afirma em 1529, pela acção dramática que o Triunfo do Verão (Primavera) já sucedeu, foi celebrado antes, em 1503, transpondo para 1529 o mesmo Triunfo: repetindo e adaptando as cenas (possivelmente não apenas a letra dos versos) mais de um quarto de século depois. Esta transposição realizada por Gil Vicente - do Triunfo do Verão de 1503 para 1529 - constitui a prova cabal de que a nossa interpretação de Quatro Tempos está correcta, porque, em Inverno, o infortúnio de Portugal (e não um triunfo do Verão) está bem chapado ao ser vencido pela tempestade, pela má condução do governo do país (da nau) promovendo os incapazes, só porque são seus amigos ou de classe, ontem como hoje.
      Em Quatro Tempos, o Outono (França), propõe a cantiga que vão cantando, ay de la noble villa de Pariz - ele não se submete aos Reis Católicos - e após a cantiga abandona a cena, porém, não havia ainda uma absoluta certeza quanto ao desfecho da guerra que decorria em Itália, mas qualquer que fosse o seu desfecho final, pela análise política sabia-se que o Poder dos Reis Católicos se viria a impor contra a França: ay de la noble villa de Pariz
      O Verão (Espanha), trata de afastar o Inverno (Portugal), Afuera, afuera ñubrados, / nebrinas y ventisqueros, / reverdeen los oteros, / los valles, sierras y prados, / reventado sea el frío / y su ñatío..., depois, vangloria-se do seu Poder, ostenta a sua grandeza e domínio, como a capacidade de se impor aos outros, mas também se admira a si próprio: Cuantas más veces me miro / y me remiro / véome tan quillotrado / tan llucio y bien asombrado / que nunca lacer me tiro. De resto é o delírio descritivo do Verão.
      O Estio (Itália) lamenta-se do seu estado: Terrible fiebre ifimera / hética y fiebre podrida / me traen seca la vida / acosándome que muera. Porém, em resposta directa ao Verão, manifesta o orgulho da sua identidade cultural que se impõe em Espanha, dizendo: Calla, calla verdolete, / que, bueno es el tiempo mío. / Porque asesa tus locuras, / tus vanas flores y rosas, / y otras cosas coriosas / que en ti no son seguras.
      (...)

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- Livros publicados no âmbito desta investigação, da autoria de Noémio Ramos:

(2018)  - Sobre o Auto das Barcas de Gil Vicente, Inferno, ...a interpretação -1.
(2017)  - Gil Vicente, Aderência do Paço, ...da Arcádia ao Paço.
(2017)  - Gil Vicente, Frágua de Amor, ...a mercadoria de Amor.
(2017)  - Gil Vicente, Feira (das Graças), ...da Banca Alemã (Fugger).
(2017)  - Gil Vicente, Os Físicos, ...e os amores d'el-rei.
(2017)  - Gil Vicente, Vida do Paço, ...a educação da Infanta e o rei.
(2017)  - Gil Vicente, Pastoril Português, Os líderes na Arcádia.
(2017)  - Gil Vicente, Inês Pereira, As Comunidades de Castela.
(2017)  - Gil Vicente, Tragédia Dom Duardos, O príncipe estrangeiro.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Quatro Tempos, Triunfo do Verão - Sagração dos Reis Católicos.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Reis Magos, ...(festa) Cavalgada dos Reis.
(2014)  - Gil Vicente, Auto Pastoril Castelhano, A autobiografia em 1502.
(2013)  - Gil Vicente, Exortação da Guerra, da Fama ao Inferno, 1515.
(2012)  - Gil Vicente, Tragédia de Liberata, do Templo de Apolo à Divisa de Coimbra.
(2012)  - Gil Vicente, O Clérigo da Beira, o povo espoliado - em pelota.
(2010)  - Gil Vicente, Carta de Santarém, 1531 - Sobre o Auto da Índia.
             - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura" 
(2ª Edição, 2017)
(2010)  - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura".
(2010)  - Gil Vicente, Auto da Visitação. Sobre as origens.
(2008)  - Gil Vicente e Platão - Arte e Dialéctica, Íon de Platão.
             - Gil Vicente, Auto da Alma, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II... 
(2ª Edição, 2012)
(2008)  - Auto da Alma de Gil Vicente, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II...

- Outras publicações:
(2003) - Francês - Português, Dicionário do Tradutor. - Maria José Santos e A. Soares.
(2005) - Os Maios de Olhão e o Auto da Lusitânia de Gil Vicente. - Noémio Ramos.

  (c) 2008 - Sítio dedicado ao Teatro de Gil Vicente - actualizado com o progresso nas investigações.

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