E pera declaração
desta obra santa et cetra...,
quisera dizer quem são
as figuras que virão
por se entender bem a letra.
                                            Gil Vicente
  ... em  Romagem dos Agravados.
Gil Vicente
   Renascença e Reforma - Líderes políticos e ideólogos - Ideologia e História da Europa
Online desde 2008 - Investigação actualizada sobre as obras de Gil Vicente.
Retórica e Drama - Arte e Dialéctica
Teatro 1502-1536
o projecto
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Sobre a Crítica

         O objecto de uma crítica é, sobretudo, uma avaliação do evento que se apresenta como a encenação de uma peça - a acção dramática recriada em cena - pelo seu confronto com a concepção que o observador (crítico) faz da mesma Obra.
         Esta avaliação pode ser explicada e levada ao pormenor a sua análise, ou pode nem sequer merecer a pena tal esforço quando a encenação de uma peça se apresentar ridícula ou mesmo boçal.

         A concepção de uma obra de Arte de Teatro é sempre aberta às mais variadas - ao infinito de formulações da obra - reconstruções da acção dramática que constitui uma Obra de Teatro, porque a Obra de Teatro é a formulação da acção dramática. Encenar é dar uma forma concreta à acção dramática criada pelo autor da Obra, recriar o evento, dar-lhe forma criando uma encenação da acção.
         Referimo-nos, evidentemente, ao Teatro da Renascença e mais especificamente ao teatro de Gil Vicente.
         Se no evento encenado não se vê (lê) a acção dramática da Obra, então a peça está, pura e simplesmente, a ser danificada ou mesmo destruída. E isto pode acontecer por várias razões, muitas das quais já Aristóteles tratou com objectividade na sua Poética... Contudo, foi Platão quem primeiro tratou a questão.

         No Íon Platão trata a questão da destruição da Obra de Homero no acto da sua interpretação pelo rapsodo - seja como um músico deve interpretar uma pauta musical, seja como o actor, rapsodo, ou director de cena, deve interpretar o texto de uma Obra, - e em geral destruída pelos próprios homéridas, em especial por Íon.
         Qualquer rapsódia, qualquer parte de uma obra é apenas isso, apenas um fragmento da letra de uma obra de teatro.
         E em Hípias (menor) demonstra como o sábio (mais sabedor que os sete sábios) Hípias, não tem um mínimo de capacidade para captar o sentido de uma Obra de Arte, não se apercebendo da acção dramática, nem sequer da sua trama na forma aparente, sendo incapaz de alcançar a forma inteligível da Obra de Arte, e por isso quando pretende ensinar (e fazer conferências sobre o assunto) está a produzir involuntáriamente um mal, fornecendo falsa informação aos espíritos mais jovens; o que é pior que o artista que produz voluntariamente o feio e disforme, porque produzindo este mal, o estará fazendo com plena consciência, que deste modo se apresenta na sua forma inteligível, tornando evidente o seu produto como Belo.

         Estas questões são eternas no que diz respeito à encenação de uma peça de Teatro. Se se tratar de Teatro!

         De um modo geral evidenciam-se os indivíduos de sucesso, são os "eleitos" pela maioria, são os preferidos pelos aficionados. Eles são sempre os mais premiados, são os íons. Enquanto os promovidos a críticos e observadores (analistas), os que são promovidos a sábios, são os hípias. Ainda hoje a sociedade e as "elites culturais" funcionam deste mesmo modo. Nada mudou.

        Assim o papel do observador crítico está em conhecer bem as obras pela acção dramática, e estar bem aberto a qualquer encenação. Do mesmo modo que deve reconhecer bem os íons e os hípias, não se deixando envolver naqueles aneis magnéticos dos aficionados, nem se deixando enganar pelas gerações de especialistas que tão bem evocam o "saber" pelas citações de citações, de citações... Mas também deve estar prevenido pelas alianças dos hípias com os íons, quase sempre acarinhadas e apoiadas pela sociedade representada pelas instituições do Poder que por estes distribui todos os meios ao seu alcance. Estes são os senhores do espectáculo, dos triunfos, das pantomimas, etc..
 

             Em Portugal as Companhias de Teatro, em geral, são suportadas pelos dinheiros públicos, nacionais (Ministério da Cultura) e municipais (Câmaras Municipais).

             Os financimentos podem ser consultados nos sítios (internet) do Ministério, de diversas Direcções-Gerais, sobretudo pela Direcção Geral das Artes, mas também de alguns outros organismos públicos que contribuem. Depois, há ainda as Fundações (muitas são também de dinheiros públicos), Centros de Cultura, etc..
             Consultando os financiamentos dos últimos anos de algumas dezenas de Companhias, podemos dizer que o Teatro vive muito bem em Portugal.

    
A questão é saber se deve ou não ser esta a via de facto, para um desenvolvimento cultural.

1 - Da Arte do Teatro;
             a) criação;
             b) encenação;
             c) representação;
             etc..
2 - Da Formação Cultural da população (o público)...
3 - Do conhecimento e enriquecimento do universo cultural da Nação.
4 - De divulgação global do universo cultural e linguístico...
... etc. ... 

- Quais os resultados destes investimentos?
- Que público se obteve? (público pagante, não os bilhetes oferecidos pelos envolvidos).
- Qual o enriquecimento no Universo Cultural e linguístico?
- Que divulgação e que retornos houve?

      Mas há que distinguir Teatro e Rapsódia


     A diferença entre Teatro e Rapsódia é abismal...

     Quanto aos rapsodos, e à sua actividade, caracterizavam-se (e não se caracterizarão ainda?) em geral, como incapazes de interpretar o sentido dos versos, e menos ainda o seu carácter figura­tivo. Uma passagem do Banquete, de Xenofonte, é bastante significativa:

     Meu pai, respondeu Nikératos, esforçava-se para que eu me transformasse num homem de bem, e obrigou-me a aprender pelos versos de Homero. Assim, hoje, posso recitar de cor, do princípio ao fim, todos os versos de Homero.
    - Ignoras tu, disse Antístenes, que também os rapsodos sabem de cor esses ver­sos?
    - Como poderia ignorar, eu, que sou um ouvinte quase diário deles? Tu conheces alguma raça mais tola (idiota, grego) do que a dos rapsodos?
    - Não, por Zeus, respondeu Nikératos, de facto não.
    - De facto, torna-se claro, disse Sócrates, que eles não conhecem o sentido oculto dos versos, a hiponóia.

      (Xénophon, Banquet, Paris, Les Belles Letres, 1972. III, 6 - p. 49)


        Em Íon de Platão:

         A patetice de Íon está evidenciada nesta sua intervenção no diálogo:      ... acredito dizer melhor a respeito de Homero que (…) nenhum outro dos que existiram até hoje, e nem Metrodoro de Lâmpsaco, nem Estesímbroto de Tasos, nem Glauco, foram capazes de dizer tanto nem exprimir pensamentos tão belos.

         O rapsodo compara-se aos famosos intérpretes que se seguiram a Anaxágoras, como leitores da hiponóia, isto é, do sentido e pensamentos no mythos das obras de Homero. Ele equipa­ra-se aos verdadeiros analistas do sentido e conteúdo da obra poética, o que, para além de denotar a sua enorme e alheada ignorância, manifesta a sua completa idiotice, juntando a falta de consciência no que diz à sua incapacidade de leitura de uma obra poética.

          Como qualquer iconoclasta, ao fragmentar a obra poética está destruindo o seu mythos e, sem ele, a obra poética deixa de ser Teatro para passar a ser apenas espectáculo... Não de teatro, mas espectáculo de coribantes, ou de dicção (ou declamação de versos, cujo significado poderá estar apenas nas palavras), coreografia e expressão corporal e emocional. Uma forma de expressão vivencial de actores coreografada pelo encenador, como qualquer ion

          Porque é que as Companhias de Teatro estarão a preferir as Rapsódias (como Íon) em vez de peças de Teatro?...


- Livros publicados no âmbito desta investigação, da autoria de Noémio Ramos:

(2017)  - Gil Vicente, Aderência do Paço, ...da Arcádia ao Paço.
(2017)  - Gil Vicente, Frágua de Amor, ...a mercadoria de Amor.
(2017)  - Gil Vicente, Feira (das Graças), ...da Banca Alemã (Fugger).
(2017)  - Gil Vicente, Os Físicos, ...e os amores d'el-rei.
(2017)  - Gil Vicente, Vida do Paço, ...a educação da Infanta e o rei.
(2017)  - Gil Vicente, Pastoril Português, Os líderes na Arcádia.
(2017)  - Gil Vicente, Inês Pereira, As Comunidades de Castela.
(2017)  - Gil Vicente, Tragédia Dom Duardos, O príncipe estrangeiro.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Quatro Tempos, Triunfo do Verão - Sagração dos Reis Católicos.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Reis Magos, ...(festa) Cavalgada dos Reis.
(2014)  - Gil Vicente, Auto Pastoril Castelhano, A autobiografia em 1502.
(2012)  - Gil Vicente, Tragédia de Liberata, do Templo de Apolo à Divisa de Coimbra.
(2012)  - Gil Vicente, O Clérigo da Beira, o povo espoliado - em pelota.
(2010)  - Gil Vicente, Carta de Santarém, 1531 - Sobre o Auto da Índia.
             - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura" 
(2ª Edição, 2017)
(2010)  - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura".
(2010)  - Gil Vicente, Auto da Visitação. Sobre as origens.
(2008)  - Gil Vicente e Platão - Arte e Dialéctica, Íon de Platão.
             - Gil Vicente, Auto da Alma, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II... 
(2ª Edição, 2012)
(2008)  - Auto da Alma de Gil Vicente, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II...

- Outras publicações:
(2003) - Francês - Português, Dicionário do Tradutor. - Maria José Santos e A. Soares.
(2005) - Os Maios de Olhão e o Auto da Lusitânia de Gil Vicente. - Noémio Ramos.

  (c) 2008 - Sítio dedicado ao Teatro de Gil Vicente - actualizado com o progresso nas investigações.

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O Teatro de Gil Vicente
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