Retórica e Drama - Arte e Dialéctica
Gil Vicente
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Teatro 1502-1536
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Sobre o "Auto dos Físicos"
os físicos (médicos) e os amores de el-rei João III de Portugal
         ...momentos envolvidos na peça:

...cada figura na personagem personificada, sabe que na farsa se trata dos amores de el-rei, e do seu casamento já contratado com Catarina, - os amores e a necessidade do casamento referidos na peça - optando, pois, por inventar um outro mal - talvez até sugerido pelo real doente durante algumas das suas indisposições - indicando depois o tratamento adequado ao diagnóstico que cada um propõe como personagem.
    Os físicos presentes reconhecem-se a si próprios e aos seus pares nas caricaturas benévolas, ao assistir à sua conduta, aos seus tiques, na fraseologia, no modo de falar e imitação de voz, nos gestos, no uso da sua cultura e saber, emoções, etc., onde o objecto do divertimento é a figura de el-rei na personagem do Clérigo enamorado, nos seus lamentos por acabar de perder Branca de Nisa (Leonor de Habsburgo) que partiu para Espanha, - está a doença em Bilbau - e vai já (supostamente) a caminho da Provença, talvez passando em Perpignan (Perpinhã, Pero Pinhão) ao encontro de quem foi prometida em casamento por seu irmão Carlos de Habsburgo, o duque Carlos III de Bourbon, que ao tempo se encontrava no Sul de França (seus territórios) preparando o cerco a Marselha. Entretanto, segundo o Clérigo, ela haveria de passar por casa da mãe (Joana a Louca) em Tordesilhas, e até se poderia encontrar com a tia (Margarida de Habsburgo) e o cunhado do Clérigo  (irmão de Catarina e de Leonor, Carlos V).
    No final a figura do padre confessor do rei, frei Diogo da Silva, como os físicos também identificado pelo seu verdadeiro nome, mas em castelhano (frei Diego), ouve o doente que, expressando as suas emoções, se sente preparado para a morte de amor: … / no me puedo arrepentir, / porque es tan dulce el dolor / que no me amarga el morir. // Padre, no soy quien solía.
Sobre o Auto dos Físicos
     Caso porventura único no teatro de Gil Vicente, os físicos, personagens da peça de Gil Vicente, correspondem, na realidade, a destacadas personalidades com as quais o autor convive na Corte portuguesa e, tanto estes como aqueles que são referidos pelas personagens, são de facto médicos de el-rei João III de Portugal, ou foram-no de anteriores reis e rainhas.
      Esta peça poderá constituir um caso muito especial em toda a obra de Gil Vicente - talvez como o original de Regateiras de Lisboa, - pois, na nossa opinião, nunca foi representada ao rei.
      No Auto dos Físicos o autor retoma o contexto de Regateiras de Lisboa, agora centrando a acção dramática no referido Clérigo, enamorado e atrevido (em Regateiras) por Natália do Vale e, agora em Físicos, sofrendo de amores por Branca de Nisa. E, note-se que, enquanto que antes (Antunes), Brazia (Espanha) zelava por Natália do Vale, agora (Dias), Brásia (Portugal) zela pelo Clérigo.
      Em 1523, el-rei João III, depois de assistir à representação da Tragédia Dom Duardos em dia de Maio (primeiro de Maio), em Almeirim ou talvez (por mais certo) em Muge, de alguma maneira aludindo à partida para Espanha de Leonor de Habsburgo - que terá assistido e vivido aquela encenação da triste partida de Flérida - e, pouco tempo mais tarde, em Tomar, onde assistirá à representação de Inês Pereira, volta novamente a Almeirim, seguindo daí para Évora, onde nesse mesmo ano celebra a festa de Natal assistindo ao Auto em Pastoril Português e, no Natal de 1524 ao Auto da Feira onde ainda se encontrava. Entre o Natal de 1523 e o de 1524 o rei não esteve em Lisboa, por certo onde o Auto dos Físicos foi representado, como também teria sido representado antes o original do Auto das Regateiras de Lisboa.

      Pela análise da peça concluímos que - como terá sido a peça original de Gil Vicente que deu origem às Regateiras de Lisboa - o Auto dos Físicos constitui um divertimento para uma pequena parte da Corte e, sobretudo, para alguns dos médicos (físicos) que estão em Lisboa em 1524, pois, para além da peste teriam muitos outros afazeres. Mas é evidente que haveria também médicos junto de el-rei. Se o objectivo da ironia, na crítica pessoalmente dirigida, tivesse sido a actividade dos físicos, não constariam da peça o nome de cada um deles, mas os nomes de personagens na forma de caricaturas daqueles que figurariam. Além disso nem as referências a outros físicos (médicos) - nos termos em que são feitas por personagens que personificam entes reais - se haveriam de apresentar, pois são citados alguns outros mestres físicos: Gil, Rodrigo, Nicolau e Luís Mendes. O objecto da sátira não está nos médicos, o objecto da sátira está na figura do Clérigo, para os médicos até há da parte do autor da peça uma certa simpatia. Costa Ramalho, muito bem o observou: quer mestre Fernando, o do estribilho «ouvi-lo?», quer mestre Henrique, o do «haveis mirado?», são apresentados com bem humorada simpatia, como personagens do «Auto chamado dos físicos, no qual se tratam uns graciosos amores de um clérigo», Como no próprio impresso existente da peça consta: no qual se tratam uns graciosos amores de um clérigo. Assim, a questão fundamental, o âmago da peça, são os amores do clérigo e não a actividade, o agir ou comportamento dos físicos.
     (...)
      Depois, o canto no final constitui de facto uma grande salada da actualidade de todos os assuntos políticos e das intrigas da Corte portuguesa, e já referimos alguns dos mais importantes: (1) o nascimento - vispera de navidad - do bastardo de João III em 1523; (2) a saída para Espanha da rainha (Sol) Leonor de Habsburgo - al tiempo que el sol salía - em fins de Maio do mesmo ano; (3) os amores de el-rei pela madastra - quem ora soubesse / onde o amor nasce - e vice-versa; (4) O destino de Leonor seria (virtualmente) Perpinhã para se encontrar com o prometido duque de Bourbon (Carlos III) que, com o imperador, faz guerra a Francisco I rei de França - dixo Francia en su latin: / si volem ligera (…) / vera xi, si vole la guerra - não deria quem era la moça, / não diria quem nem quem não; (5) O Clérigo, com a partida de Branca de Nisa, - frei João estai quedo co a mão - embriaga-se com os vinhos de casta Pero Pinhão; etc., etc..

      (...)
      Como temos afirmado, na saga de el-rei João III, o Auto dos Físicos é antecedido por Vida do Paço, onde, pelo seu mythos, se figura a situação vivida na Corte portuguesa, num conflito com o imperador por duas razões objectivas: pela alongada permanência da rainha Leonor de Habsburgo em Portugal, e em confronto quase oculto com os Habsburgo, por o governo deste país não autorizar que a filha de Manuel I de Portugal, a infanta Maria, acompanhe sua mãe para Espanha. E, entretanto, com o sucessivo adiamento da partida de Leonor de Habsburgo para Espanha, prepara-se em Portugal, diríamos que à socapa de sua mãe e das entidades oficiais castelhanas, a melhor educação para a criança (a infanta Maria). Enquanto que em Físicos, em verdade e de modo figurado, Leonor já saiu de Portugal e o casamento de el-rei João III com a irmã de Leonor e do imperador Carlos V, Catarina de Habsburgo, está já em tratado assinado em Burgos a 19 de Julho de 1524, e depois da dispensa do Papa Clemente VII (porque eram primos direitos) confirmado o casamento, repetindo-se a cerimónia em Tordesilhas a 10 de Agosto de 1524 (Crónica…, Francisco de Andrade).

      Entre a partida de Leonor e a chegada da rainha Catarina de Habsburgo, na Corte portuguesa viveu-se um período de tempo, traduzido por importante produção cultural, por um sentimento de liberdade que se manifesta ainda no ambiente de recuperação emocional que Gil Vicente vai caracterizar no seu teatro, em Aderência do Paço, por estado pastoril, vivendo-se como que na Arcádia. São desta época as peças da saga de el-rei João III de Portugal, mas algumas outras peças, que não fazem parte desta saga, são também deste período. São criações que se integram numa nova tipologia, cujos antecedentes conhecidos são Índia e Quem tem farelos, mas esta nova fase, mais avançada, inicia-se em 1523 com a peça Inês Pereira, adquire aperfeiçoamento em toda a obra de Gil Vicente e, o universo criado na forma aparente de cada peça, gera as matrizes para o teatro barroco.

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Índice
Introdução                            9
saga de el-rei João iii de Portugal  13
Reescrita de textos            15
Sobre o sentido e significados  15
o mythos em Regateiras             20
outros amores de el-rei João iii  24
Regateiras de Lisboa (1524)                 25
Regateiras de Lisboa
(figuras)  27
observações sobre Regateiras  30
Esquema estrutural de Regateiras  31
Sobre o Auto dos Físicos             33
data da representação               34
trama, mythos e enredo                36
Figuras do Auto dos Físicos               42
Esquema estrutural da peça               44
da representação do tempo ao sentido  46
os médicos e o confessor de el-rei  50
concluindo                                              56
Auto dos Físicos                       57
Apêndice                                    81
Auto das Regateiras de Lisboa  81
Enquadramento cronológico  99
- Livros publicados no âmbito desta investigação, da autoria de Noémio Ramos:

(2018)  - Sobre o Auto das Barcas de Gil Vicente, Inferno, ...a interpretação -1.
(2017)  - Gil Vicente, Aderência do Paço, ...da Arcádia ao Paço.
(2017)  - Gil Vicente, Frágua de Amor, ...a mercadoria de Amor.
(2017)  - Gil Vicente, Feira (das Graças), ...da Banca Alemã (Fugger).
(2017)  - Gil Vicente, Os Físicos, ...e os amores d'el-rei.
(2017)  - Gil Vicente, Vida do Paço, ...a educação da Infanta e o rei.
(2017)  - Gil Vicente, Pastoril Português, Os líderes na Arcádia.
(2017)  - Gil Vicente, Inês Pereira, As Comunidades de Castela.
(2017)  - Gil Vicente, Tragédia Dom Duardos, O príncipe estrangeiro.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Quatro Tempos, Triunfo do Verão - Sagração dos Reis Católicos.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Reis Magos, ...(festa) Cavalgada dos Reis.
(2014)  - Gil Vicente, Auto Pastoril Castelhano, A autobiografia em 1502.
(2013)  - Gil Vicente, Exortação da Guerra, da Fama ao Inferno, 1515.
(2012)  - Gil Vicente, Tragédia de Liberata, do Templo de Apolo à Divisa de Coimbra.
(2012)  - Gil Vicente, O Clérigo da Beira, o povo espoliado - em pelota.
(2010)  - Gil Vicente, Carta de Santarém, 1531 - Sobre o Auto da Índia.
             - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura" 
(2ª Edição, 2017)
(2010)  - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura".
(2010)  - Gil Vicente, Auto da Visitação. Sobre as origens.
(2008)  - Gil Vicente e Platão - Arte e Dialéctica, Íon de Platão.
             - Gil Vicente, Auto da Alma, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II... 
(2ª Edição, 2012)
(2008)  - Auto da Alma de Gil Vicente, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II...

- Outras publicações:
(2003) - Francês - Português, Dicionário do Tradutor. - Maria José Santos e A. Soares.
(2005) - Os Maios de Olhão e o Auto da Lusitânia de Gil Vicente. - Noémio Ramos.

  (c) 2008 - Sítio dedicado ao Teatro de Gil Vicente - actualizado com o progresso nas investigações.

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