E pera declaração
desta obra santa et cetra...,
quisera dizer quem são
as figuras que virão
por se entender bem a letra.
                                            Gil Vicente
  ... em  Romagem dos Agravados.
Gil Vicente
   Renascença e Reforma - Líderes políticos e ideólogos - Ideologia e História da Europa
Online desde 2008 - Investigação actualizada sobre as obras de Gil Vicente.
Retórica e Drama - Arte e Dialéctica
Teatro 1502-1536
o projecto
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Desiderius Erasmus Roterodamus
Erasmo de Roterdão
Comedia Floresta de Enganos
Erasmo na obra dramática de Gil Vicente

      Erasmo está presente na obra de Gil Vicente de diversos modos, seja nas ideologias de suporte dos autos, seja figurado como personagem, seja ainda partilhando uma alegoria ou mesmo apenas referenciado ou citado por alguma outra pessoa figurada no protagonista. Por vezes as figuras importantes dos autos são apenas figurantes, como em Visitação.

O texto desta página foi transcrito do livro:
Auto da Alma de Gil Vicente, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II.
Publicado Agosto 2008


       Geert Geertsen, ou
Gerrit Gerritszoon, que em português seria Gerardo filho de Gerardo, procurou uma versão latina para o seu nome, rebuscando no latim e no grego as palavras mais a seu gosto, adoptando o nome de Desiderius Erasmus Roterodamus, o que Gil Vicente traduzindo para o português, pôde estabelecer também a partir das formas do latim e grego: Desiderius, desejo, Cupido, Amor; Erasmus, de Eros, ser amado, Amor. Torna-se então evidente que os autos que lhe são mais inteiramente dedicados são Frágua do Amor (ou de Amores), Nau de Amores e Jubileu de Amores ...
[p.151]

      Já fizemos referência à participação de Erasmo em alguns autos, figurado em Felício em Rubena, Frei Narciso em Romagem dos Agravados, etc., além de Cupido em vários outros autos, como os que atrás referimos.
     Gil Vicente na sua última obra, a Comédia Floresta de Enganos, faz uma descrição figurada da influência de Erasmo de Roterdão na Europa, sobretudo nas ideologias do seu tempo. Faz-lhe uma grande crítica ao mesmo tempo que o seu elogio

     Vamo-nos, que vem Copido
     cometer o mor engano   
     que nunca foi cometido.


    Mas também em 1511, na peça Sibila Cassandra encontramos figurada a acção e a ideologia de Erasmo, evocando o Elogio da Loucura.



     Um breve sumário da presença de Erasmo nas obras de Gil Vicente pode ser lido no PDF de seis páginas retirado do livro Auto da Alma, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II... de Noémio Ramos.
Dos 500 anos (2008) do Auto da Alma
...na publicação referenciada [p.151 a 156]
Um muito breve e incompleto sumário

        Queremos deixar um testemunho evidente da nossa interpretação do Auto da Alma, que podendo parecer demasiado ousada, tememos que esteja aquém dos objectivos do autor. Gil Vicente apresenta nas suas obras uma visão do mundo mais profunda, bem mais avançada e filosófica que a do religioso Roterodamus. E o testemunho é dado pelo próprio autor dos autos, em Floresta de Enganos. Porém, antes, para uma melhor compreensão vejamos como Gil Vicente nos mostra Erasmus em obras que, como estas, Alma e Floresta, lhe são quase inteiramente dedicadas, havendo outras em que a sua intervenção é também importante.
        Geert Geertsen, ou Gerrit Gerritszoon, que em português seria Gerardo filho de Gerardo, por sua própria vontade procurou uma versão latina para o seu nome, rebuscando no latim e no grego as palavras mais a seu gosto para uma suposta tradução, adoptando o nome de Desiderius Erasmus Roterodamus, o que Gil Vicente traduzindo para o português, pôde estabelecer também a partir das formas do latim e grego: Desiderius, desejo, Cupido, Amor; Erasmus, de Eros, ser amado, Amor. Torna-se então evidente que os autos que lhe são mais inteiramente dedicados são Frágua do Amor (ou de Amores), Nau de Amores e Jubileu de Amores, e poderíamos ainda falar de um Triunfo de Cupido (1531), se acaso existissem mais referências que o pudessem caracterizar.
        Considerado perdido, o Auto Jubileu de Amores foi representado em Bruxelas ao imperador Carlos V em Dezembro de 1531, e dele poderão ter desaparecido todas as cópias, supostamente destruídas pela Inquisição, a não ser que nos segredos proibidos do Vaticano, ou em algum espólio de Erasmus ou noutro qualquer reduto de papéis velhos, se pudesse encontrar uma cópia, pois há uma lenda antiga dizendo que Erasmus quereria estudar a língua portuguesa para poder ler Gil Vicente. Na verdade, não podemos determinar de que trata este Auto, mas com toda a certeza que também trata de Erasmus e do tema de uma das suas últimas publicações (de 1529, 1530 ou 1531 - tratado de Algerus e do seu prefácio aceitando a hóstia e a Eucaristia?), e ou do seu jubileu, da sua reforma da doutrina cristã? Todavia, podemos concluir que este título não corresponde a nenhum dos autos até hoje conhecidos de Gil Vicente, nem a nenhum dos autos anónimos que conhecemos.
Floresta de Enganos contém uma grande e última homenagem a Erasmus, sem deixar de evidenciar uma visão crítica. Foi possivelmente escrito ao aproximar da sua morte (que embora se possa admitir que possa ser um pouco posterior à morte de Erasmus, isso parece-nos menos provável pelo próprio mythos do auto), e tal como o Auto da Alma trata um conteúdo que se relaciona com o Enquiridion.

        Acompanhando desde o seu início a produção teórica de Erasmus (Adágios), em Frágua do Amor (1525) Gil Vicente, entre outros temas, trata também do livre arbítrio, um tema de 1524 em Erasmus, e em Nau de Amores (1527) trata do conceito de liberdade, e da luta que se torna necessário empreender para se obter ou conquistar a liberdade de pensamento e expressão, tal como Erasmus terá exposto em Hiperaspistes em 1526, obra de Erasmus que ainda desconhecemos.
Em 1521 Gil Vicente, exceptuando o amor à liberdade que lhe reconhece, ainda mantém uma certa crítica em relação ao pensamento de Erasmus, que trata em Rubena, de rubro como a cor do poder na Igreja, ou de rubro de vergonha. Tinha então o autor do Auto evidenciado uma certa simpatia por Lutero, com Cismena, com o cisma previsível que está provocando, figurando nela a Graça divina - a liberdade de pensamento do Auto da Alma - a Graça de interpretar, e o seu príncipe da Síria (Lutero), um criado de, da criação de Felício, o autor do Enquiridion e dos Adágios, que se conduz ele próprio à inacção, ao suicídio por amor da liberdade de pensamento, por amor de Cismena, ouvindo o eco de si próprio - o ovo que Lutero vai agora chocar, pois com Cismena, é Lutero quem passa a dirigir a luta pela liberdade de pensamento e sua expressão.
        Mais tarde Gil Vicente mostrará a sua revolta contra Lutero e, depois dos Hiperaspistes, dirige também o seu ataque ao servo arbítrio e predestinação em Serra da Estrela, onde o Ermitão (Lutero) faz os casamentos em conformidade. Mais brando em Romagem dos Agravados, onde Lutero é Frei Paço, presidindo a uma cerimónia da Igreja Protestante, o servo arbítrio manifesta-se pelo conformismo e resignação..., o que as regateiras não aceitam. Erasmus em Romagem é Frei Narciso, que prega a generosos príncipes..., pois não há de ter uma mula para andar sempre xula, xula. Embora o nosso trabalho de investigação e estudo nos permitisse descrever o mythos de cada um dos autos, porque consideramos que há um enorme trabalho ainda a desenvolver com a escrita e aprofundamento das análises, não pretendemos levantar mais os véus que os encobrem a todos.

        Em 1525, em Frágua do Amor, Gil Vicente é especialmente crítico em relação às ideias de Erasmus (mais que no Auto da Alma): Cupido dispõe de uma máquina que, com a sua ajuda (Deus) e livre vontade das pessoas, as pode mudar de acordo com o elas quiserem, pela vontade e livre arbítrio, é uma figuração de Sobre o livre arbítrio, (Erasmus 1524). Neste auto, a crítica de Gil Vicente é arrasante, pois a mudança humana não depende apenas da decisão e vontade das pessoas, ou de cada um, como se pode constatar pelo Negro que se quis tornar branco como o ovo da galinha, saiu da Frágua de facto branco, mas falando como um negro, e assim, teria preferido continuar como era. A brincadeira do autor vai muito mais longe, pois o auto não trata apenas de Erasmus, nem apenas dos indivíduos.

        Em 1527, Nau de Amores, revela então o total apoio às novas ideias de liberdade que Erasmus expõe em Hiperaspistes (de 1526), ideias que fizeram tremer os mais poderosos - as ideias que provocaram uma reunião de sábios em Valladolid, para avaliar se Erasmus não deveria ser entregue à Inquisição - o que se vai revelar na acção do Auto, e se especifica muito sumariamente nos versos de Gil Vicente: tengo de cobrar primero / la ventura en mi poder / que pueda hacer lo que quiero. - Tenho que colocar primeiro o destino nas minhas mãos para que possa fazer o que quero. Fala aqui o Príncipe da Dinamarca que se desloca a Lisboa de propósito, em busca daquela que é a mais famosa pela sua lucidez, Lúcida Fama:

          Dícenme que para haber        
(140)
          esta Fama, por quien muero,
          tengo de cobrar primero
          la ventura en mi poder,
          que pueda hacer lo que quiero.


        E esta mesma questão, melhor identificada por este último verso: que pueda hacer lo que quiero; será pouco mais tarde, cinco anos depois, em 1532, utilizada por Rabelais, como uma norma para a educação, Crónicas de Pantagruel. Se queremos algo, mas não o conseguimos alcançar, será porque não somos livres? A liberdade não me deveria assegurar que eu possa fazer o que quero? O que na linguagem de Gil Vicente já tinha obtido uma resposta, pois Tenho que colocar primeiro, o destino em meu poder, o destino nas minhas mãos… Lutar por isso, para que possa fazer o que quero. Lutar pela liberdade.
        Apesar disso, Erasmus e o Hiperaspistes, não constituem as peças fundamentais de Nau de Amores, são apenas o recurso possível, porque o principal, que faz parte do auto como elemento fundamental do seu mythos, é proibido, é negado ao autor e ao príncipe da Dinamarca, o principal está em Lisboa, pertence-lhe, e só o seu rei lhe pode dar. Deixemos este Auto extraordinário para uma outra ocasião, pois cada um dos autos merece que lhe dediquemos uma publicação. E os melhores autos de Gil Vicente, os mais Belos, são sem dúvida os do reinado de João III.
        Finalmente, em Floresta de Enganos, além das personagens da apresentação, o filósofo e o parvo, sobre os quais já nos pronunciámos, cabe aqui mostrar como é que Gil Vicente apresentando Erasmus figurado em Cupido, resume a actividade do religioso de Roterdão ao longo de toda a sua vida, incluindo no mythos deste Auto uma acção que traduz as consequências que, na Europa, as lutas ideológicas provocadas pelas suas obras vieram a determinar. O seu título, leva-nos, pois, à origem da questão dos enganos ideológicos, o engano de Erasmus a que já nos referimos - a contradição fundamental, da livre interpretação da Bíblia, contra a interpretação exegética da parábola do bom samaritano - é pois, um título retirado do Enquiridion, mas antes recordemos o verso especial de Gil Vicente, no Auto da Alma, nas palavras, dirigidas à Alma (talvez melhor ao público) pelo Mundo, o Diabo: Que não vos hei de enganar. E em Erasmus: toda a vida dos mortais não é mais que uma militia, (...) que a maior parte da gente anda enganada, pois o mundo enganador tem embargado os seus pensamentos com enganos lisonjeiros...

        Como o Auto da Alma e os autos que antes citámos, esta peça é complexa, vamos deixar a análise da forma mais completa do seu mythos para quando apresentarmos o nosso estudo de Floresta de Enganos. Fomos encontrar neste auto, uma outra das suas aparentes peças aí incluídas, que pelo argumento que Gil Vicente apresenta, se trata do segundo engano, o de Cupido - a contradição fundamental, o engano de Erasmus - que se vai desenvolver no decorrer da acção e, este argumento, como toda acção dramática do auto, é o melhor testemunho para confirmar a nossa interpretação do Auto da Alma. É uma figuração do engano de Erasmus, decorrido desde o Enquridion até ao fim da sua vida. Eis aqui como o Mercador o apresenta na visão esclarecida de Gil Vicente.

            Vamo-nos, que vem Copido
            cometer o mor engano        
(260)
            que nunca foi cometido.

            Em o qual,
            mostra o amor natural
            que a Grata Célia tem,
            porém, vereis que do bem    
(265)
            às vezes se segue o mal.

        No argumento em prosa já constava este engano, contudo, não tão carregado de força, como por estes versos com que o anuncia o Mercador.
        El segundo engaño será que siendo Copido enamorado de la princesa Grata Celia la cual era hija del rey Telebano, rey de Tesalia, por lo cual siendo Grata Celia hija deste rey y señora de la más excelencia y estremada hermosura del mundo, no podiendo Copido haber con ella lugar solitario, ni tiempo oportuno, descanso de su angustiada vida, determinó de engañar al dios Apolo por que el dios Apolo engañase al rey Telebano. Y el rey Telebano engañado del dios Apolo llevó Grata Celia engañada a la sierra Minea, adonde con grande angustia su padre la dexó desterrada y presa, y cuando Copido hubo alcanzado y hecho su engaño descendió del cielo a la tierra donde presa estaba y fue della engañado dos veces... É necessário ler Floresta de Enganos, para concluir o argumento.

        Vejamos muito sucintamente parte de Floresta, este mundo enganador:
Grata Célia, ou Graça dos Céus, figura neste auto a Graça divina, ou com origem no Enquiridion, a liberdade de pensamento, a possibilidade de interpretar a Bíblia. El-rei Telebano, seu pai, figura o Papa, chefe do Estado Pontifício, e a mãe é Igreja de Roma. O poder papal está preocupado com o seu Templo de Apolo (a Basílica, tal como no auto Templo de Apolo) e o seu domínio do mundo. Apolo, filho de Júpiter, é a figuração de Cristo visto pela renascença pagã.
        Após o Enquiridion, Cupido sabe que erra, mas há que sarar o dano produzido, pelo que o seu Mundo triste de agora, é um Templo de Engano, ainda que consciente que não é só o seu Mundo que engana, pois há uma grande rede de enganos.

            Yo bien sé que erro, ahora,
            mas, es por sanar un daño...
            Perdóname mi señora,
            que el mundo triste de agora
            se llama Templo de Engaño. 
(380)

        Cupido foi enganado por este mundo, como padre enamorado pela Graça Divina, pretende possui-la, pretende a liberdade de pensamento, a Graça, a liberdade de interpretar - Erasmus no Enquiridion - e para o conseguir engana Apolo com o seu Templo, o Templo como corpo de Deus e o seu corpo Templo do Espírito, em vez de uma Igreja Instituição, - Templo de Engano, a contradição fundamental - para que Apolo engane Telebano com a destruição do seu Templo (a Madre Igreja), se este não levar Grata Célia para fora, - a interpretação das Escrituras fora da Igreja - e enganado Telebano, a pretexto de perder o seu Templo, - Templo de Engano, para Telebano o Templo é a nova Basílica - engane Grata Célia.
        Apolo convence Telebano que, para salvar o seu Templo (Basílica), teria de levar Grata Célia à serra Minea (que aqui em Floresta, figura a Europa, Alemanha). Grata Célia, a Graça Divina, é agora para Telebano (mais um engano), uma figuração da necessidade de angariar o dinheiro necessário para a construção da nova Basílica de São Pedro, que se traduz, entre outras coisas, pela venda de indulgências. Grata Célia figura então, para Telebano, a Graça de perdoar os pecados.
        Presa na serra Minea, Grata Célia engana Cupido, pois constitui o perdão dos pecados vendido aos poderosos - aí é repescada por Lutero aos quinze anos (1517), como Cismena em Rubena (15 anos depois da publicação do Enquiridion) - e é assim que Cupido a vai encontrar presa em conflitos contraditórios com o pai. Aproveitando o amor à liberdade de Erasmus, Grata Célia requer que o demonstre, convencendo Cupido a defender, lutar e sacrificar-se  por ela. Enganado, Cupido prende-se por ela, prometendo manter-se nessa prisão. Erasmus demonstra a sua fidelidade à ideia da liberdade individual, em Sobre o livre arbítrio.
        Preso, Cupido só pensa em libertar-se, figurando um balancear de posição, habitual por toda a vida de Erasmus. Surge então o engano do povo - a grande divulgação das suas obras e a manipulação religiosa das populações - que, ouvindo dizer que também ele pode ambicionar o amor de Grata Célia, que também ele tem o poder de decidir, e das riquezas que pode alcançar, e sobretudo por saber que se pode ver livre de todas as suas tristezas. Assim cairá preso por Erasmus (as revoltas populares na Alemanha, os doze pontos dos camponeses) o pastor rústico, embriagado e deslumbrado com o seu amor à liberdade de pensamento, o amor a Grata Célia, mas sem saber para que lhe serve, nem como se servir de tal dama.
        O povo enganado na sua prisão é transparente, como se tivesse perdido a sua existência, pois não o ouve Grata Célia nem Cupido, a sua voz é silenciada, fala apenas para o ar, diga o que disser ninguém o ouve, nem mesmo suplicando.
Quando Grata Célia retorna à serra Minea e vê Cupido livre da sua prisão, protesta. Erasmus expressa a dívida à liberdade de pensamento, o amor a Grata Célia. Porém, porque é o oposto àquilo que defende não se pode ver preso - não se quer preso a coisa ou a ideia alguma - senão preso a ela. O povo mantém-se preso, até Grata Célia, por caridade se compadecer dele e pedir a Cupido que o liberte. Na concepção de Erasmus - Enquiridion - o povo deve estar na dependência ou nas mãos de alguém, do senhor feudal, do rei, etc..
        Cupido vai ficar preso para sempre (pensamos ser a figuração do silêncio, ou morte próxima de Erasmus, com o seu engano). Morto, porque a luta não passa por ele: No soy preso, mas soy muerto! Mais uma vez, vai ser enganado por Grata Célia, pois manifesta o seu amor a uma verdadeira liberdade de pensamento, com o poder de interpretar e de exprimir, pois por Grata Célia, Cupido tudo aceita.
        São os textos Hiperaspistes, nos quais Erasmus mantém e alarga as suas ideias sobre a liberdade do indivíduo poder pensar por si próprio e interpretar, que provocam a Conferência da Inquisição em Valladolid para análise das suas ideias, prendendo-se pois Cupido para sempre a Grata Célia. Contudo, faltará algo que tornaria mais compreensível a acção de Floresta de Enganos, falta o Jubileu de Amores.
        A última intervenção de Cupido evidencia bem a sua falta de firmeza, que era visível por muitos outros à sua volta mas que nunca passou pela sua consciência. As atitudes que tomou ao longo de toda a sua vida sempre lhe pareceram as mais correctas, nunca reparou que, por vezes, aos outros lhes parecia que balanceava entre as posições que tomava. Assim, quando Grata Célia lhe contesta: que Amor que não tem fé, não pode morrer de amores. Cupido responde: Porque não creis nas minhas dores, que o meu mal claro se vê.

     Copido    Señora, y este vuestro preso,   (1140)
                   sin remedio, ha de morir?

Grata Célia   Y por qué? 
                   Que amor, que no tiene fe,
                   no puede morir de amores..
    Copido     Por qué no creis mis dolores?  (1145)
                   Que mi mal claro se ve…

        A peça não se resume ao engano de Cupido, nem a Erasmus unicamente. Terminado este encaixe, conclui logo a seguir o seu próprio mythos, onde a Ventura se apresenta como uma figura determinante, no futuro da liberdade. O Príncipe funciona neste auto como o Príncipe de Síria em Rubena, e como outros, no final de outras peças, é a utopia de Gil Vicente. Em Floresta de Enganos, o Príncipe transporta em si o humor e o saber do Povo, pela voz da Ventura, como muito bem notou Maria João Brilhante, no estudo publicado pela Quimera Editores. Pois prosseguindo o que expõe em muitos outros autos, Gil Vicente na sua última obra, coloca o Povo - como Príncipe - como a entidade capaz de dirigir e conduzir o Homem, na perspectiva de alguma vez vir a alcançar uma verdadeira liberdade.
        É de algum modo interessante ter em consideração que esta descrição não anula o trabalho de análise elaborado anteriormente, quando esse trabalho de análise se manifesta com o rigor capaz de traduzir a expressão sentimental com a lógica  da trama, manifestada pelas personagens do auto, pois essa expressão deve completar as descrições que de forma sumária aqui deixamos. O estudo de Maria João Brilhante, que atrás referimos, parece-nos ser um desses casos, e pode ser o ponto de partida a um necessário complemento, a este nosso sumário. Nesse estudo, a autora demonstra a incongruência de algumas das críticas feitas a Gil Vicente, por pessoas que foram incapazes de realizar uma leitura da obra do dramaturgo.

        Parece-nos pois, que também o Auto da Alma, como muitos dos outros Autos de Gil Vicente, possui todos os ingredientes para poder ser considerado uma das grandes obras-primas do teatro Europeu da Renascença, pois o Auto além figurar e documentar exactamente a Europa do seu século, evidencia muito claramente toda a luta ideológica que se inicia. Antecipando-se em muitos anos aos acontecimentos mais sanguinários das lutas entre as duas visões do mundo, a reforma e a contra-reforma, a luta ideológica do século xvi, numa obra criada entre 1506 e a data da sua primeira representação em 1508.

Texto do Auto
Floresta de Enganos
- Livros publicados no âmbito desta investigação, da autoria de Noémio Ramos:

(2017)  - Gil Vicente, Aderência do Paço, ...da Arcádia ao Paço.
(2017)  - Gil Vicente, Frágua de Amor, ...a mercadoria de Amor.
(2017)  - Gil Vicente, Feira (das Graças), ...da Banca Alemã (Fugger).
(2017)  - Gil Vicente, Os Físicos, ...e os amores d'el-rei.
(2017)  - Gil Vicente, Vida do Paço, ...a educação da Infanta e o rei.
(2017)  - Gil Vicente, Pastoril Português, Os líderes na Arcádia.
(2017)  - Gil Vicente, Inês Pereira, As Comunidades de Castela.
(2017)  - Gil Vicente, Tragédia Dom Duardos, O príncipe estrangeiro.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Quatro Tempos, Triunfo do Verão - Sagração dos Reis Católicos.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Reis Magos, ...(festa) Cavalgada dos Reis.
(2014)  - Gil Vicente, Auto Pastoril Castelhano, A autobiografia em 1502.
(2012)  - Gil Vicente, Tragédia de Liberata, do Templo de Apolo à Divisa de Coimbra.
(2012)  - Gil Vicente, O Clérigo da Beira, o povo espoliado - em pelota.
(2010)  - Gil Vicente, Carta de Santarém, 1531 - Sobre o Auto da Índia.
             - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura" 
(2ª Edição, 2017)
(2010)  - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura".
(2010)  - Gil Vicente, Auto da Visitação. Sobre as origens.
(2008)  - Gil Vicente e Platão - Arte e Dialéctica, Íon de Platão.
             - Gil Vicente, Auto da Alma, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II... 
(2ª Edição, 2012)
(2008)  - Auto da Alma de Gil Vicente, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II...

- Outras publicações:
(2003) - Francês - Português, Dicionário do Tradutor. - Maria José Santos e A. Soares.
(2005) - Os Maios de Olhão e o Auto da Lusitânia de Gil Vicente. - Noémio Ramos.

  (c) 2008 - Sítio dedicado ao Teatro de Gil Vicente - actualizado com o progresso nas investigações.

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