E pera declaração
desta obra santa et cetra...,
quisera dizer quem são
as figuras que virão
por se entender bem a letra.
                                            Gil Vicente
  ... em  Romagem dos Agravados.
Gil Vicente
   Renascença e Reforma - Líderes políticos e ideólogos - Ideologia e História da Europa
Online desde 2008 - Investigação actualizada sobre as obras de Gil Vicente.
Retórica e Drama - Arte e Dialéctica
Teatro 1502-1536
o projecto
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Gil Vicente..., e nós
        
     
Em 1532, no Auto da Lusitânia, Gil Vicente retrata-se na sua humanidade pelo seu maio, ao mesmo tempo que retrata os seus estudiosos censores, os clérigos da Inquisição.
      Aqui fica o que transcrevemos dessa peça - Lusitânia - quando analisámos a sua figura representada em Brás-Gil Terrón do Auto Pastoril Castelhano:

Publicações recentes

Atenção - Nota prévia   

Se nunca leu ainda nada aqui no sítio e, se pensa que conhece Gil Vicente dos tempos de escola, antes da desta página deve ler:
Gil Vicente - Obra dramática.


      ...para compreender o pensamento de Gil Vicente - avaliando o seu retrato - é necessário entender bem o que o autor entende por figuras (veja a nossa página sobre esta questão: que são figuras?), mas também como ele as cria e caracteriza nas suas obras, vejamos um exemplo típico.
Caracterização das figuras
exemplar ...o sapateiro nas obras de Gil Vicente
      Devemos sublinhar que o costume deste epíteto permanece por todo o século XVI na literatura portuguesa, o sapateiro é o banqueiro. Aliás o banqueiro, além do epíteto de sapateiro, por vezes recebe de Gil Vicente ainda outros atributos que servem para especificar a que banqueiro se está a referir em determinada peça, como por exemplo, o Calçado do Juiz da Beira: Vem um sapateiro cristão-novo, do calçado velho… Também em Inferno (Auto da Barcas), o Sapateiro é sem dúvida nenhuma um banqueiro que carrega sempre consigo as formas de cunhar moeda.
      O suporte para o cognome de sapateiro encontra-se no uso generalizado naquela época do termo cabedal, como o conceito bem formado, do que hoje conhecemos por capital (no sentido financeiro) e, como sabemos, a etimologia das duas palavras é exactamente a mesma, do latim capitale, relativo à cabeça, principal… O uso da palavra cabedal com o significado exacto de capital financeiro está documentado em várias cartas e outros documentos de el-rei Manuel I de Portugal (...), e nas obras de João de Barros desde o Clarimundo às Décadas da Ásia e à Gramática.


   - Para conhecer Gil Vicente e o seu Teatro é necessário compreender a sua primeira peça escrita, representada em 1502.
   - Leia pela nossa página Auto da Visitação, sobre as origens.


...e logo o Auto Pastoril Castelhano onde o autor apresenta a sua autobiografia em 1502.

     Em Julho de 2008, com os 500 anos do Auto da Alma, comprovámos, que tudo o que até então se tinha escrito sobre Gil Vicente devia ser deitado ao lixo, - numa forma de expressão popular - estabelecendo que um corte epistemológico era fundamental para se estudar a obra do grande dramaturgo. Dissemos que Gil Vicente foi um excelente conhecedor da Poética de Aristóteles, tanto como das obras de Platão, e que as suas preferências filosóficas e valores humanos se encontram mais na obra de Platão que em qualquer outro lado.
      Também em Castela o epíteto de Zapatero estava divulgado,
mesmo entre os cronistas do reino.

      Por morte de Isabel de Castela em 1504, ascende ao trono de Castela Felipe o Belo, pelo casamento com Joana de Castela (a louca),

- os pais do imperador Carlos V -

e quando Felipe chega a Espanha escreve o Cronista:


"...no queda zapatero en la corte
que no escriba para ofrecerse a Don Felipe..."


NOTASCabedal

      Entre muitos outros exemplos, transcrevemos este, bastante significativo: Em carta de el-rei D. Manuel, escrita na vila de Santarém em 8 de Fevereiro de l506, o rei faz mercê a Cromberger, impressor de livros: “ ...E querendo lhe fazer graça e mercê temos por bem que o dito Yacobo Cromberger e todos os outros imprimidores de livros que nos ditos nossos Reinos e Senhorios actualmente usarem a dita arte de impressão tenham e hajam aquelas mesmas graças privilégios liberdades e honras que hão e devem haver os cavaleiros de nossa casa por nós confirmados, posto que não tenham cavalos nem armas segundo ordenança. E que por tais sejam tidos e havidos em toda parte, com tal entendimento que os ditos imprimidores que ora são e pelo tempo forem em estes Reinos e Senhorios que do dito privilégio houverem de gozar tenham de cabedal duas mil dobras de ouro. E mais que sejam cristãos velhos sem (...) suspeita do alguma heresia nem tenham incorrido em infâmia nem em crime de lesa majestade. E doutra maneira não... ” Lembramos que a actual pronúncia brasileira está mais próxima do século xvi que a portuguesa.

      A palavra cabedal conserva ainda os significados que a vida e a história atribui: uma acumulação de coisas de valor, bens, haveres, fazenda, riqueza, dinheiro, capital. Noutro sentido, a formação moral e intelectual adquirida por estudo ou experiência. Assim, não resistimos a lembrar um trecho da Gramática de João de Barros, no Diálogo em louvor da nossa linguagem com as conotações dadas ao termo cabedal (o dinheiro não gasto - os danos na pele e na formação):
      …Uma das coisas menos olhada que há nestes reinos, é consentir em todas as nobres vilas e cidades, qualquer idiota e não aprovado em costumes de bom viver, pôr escola de ensinar meninos. E um sapateiro que é o mais baixo ofício dos mecânicos: não põe tenda sem ser examinado. E este, todo o mal que faz, é danar a sua pele [o cabedal], e não o cabedal alheio [o dinheiro, maus sapatos ninguém os compra], e maus mestres deixam os discípulos [sem o cabedal formação, pois danam o cabedal] danados: para toda sua vida.


Sobre o retrato coetâneo

As palavras que aqui deixamos, nesta apresentação, são um muito breve e incompleto retrato de Gil Vicente.

Mas um retrato elaborado por duas das pessoas, duas personalidades da mesma elite cultural de que Gil Vicente fez parte, que o conheceram pessoalmente, que viveram a época e assistiram, entre o público, à representação da sua obra dramática.



Monday, November 21, 2016


Gil Vicente na sua época

Retrato feito por Garcia de Resende em Miscelânea, em 1536.
Retrato feito por João de Barros em Ropicapnefma, em 1532, e na Gramática, em 1540.
...o Retrato de Gil Vicente pelo
         poeta coetâneo
Francisco de Sá de Miranda

...e está bem explicito na
      égloga Basto

  Sobre Gil Vicente disse Garcia de Resende (1470-1536) em Miscelânea:

           Pintores, luminadores,
           agora no cume estão,
           ourivizes, escultores,
           são mais subtis e melhores
           que quantos passados são.

           Vimos o grande Michael,

           Alberto, e Rafael,
           e em Portugal há tais
           tão grandes e naturais,
           que vêm quase ao nível.

           E vimos singularmente
           fazer representações
           de estilo mui eloquente,
           de mui novas invenções.
           E feitas por Gil Vicente!

           Ele foi o que inventou

           isto cá, e o usou
           com mais graça e mais doutrina,
           posto que Juan del Encina
           o pastoril começou.

           Lisboa vimos crescer

           em povos e em grandeza,
           e muito se enobrecer
           em edifícios, riqueza,
           em armas e em poder.

           Porto e tracto não há tal,

           a terra não tem igual
           nas fructas, nos mantimentos…,
           governo, bons regimentos,
           lhe falesce e não al.

governo e boas leis lhe faltam e não outra coisa!  - Que conclusão tão actual!


      Quem já leu a Miscelânea, terá reparado que não são muitos os artistas nomeados por Garcia de Resende, e muito menos os elogiados. Entre eles encontramos, pouco mais que nomeados alguns músicos, e depois de, em um ou outro verso, falar das grandes obras de pintura, escultura e ourivesaria, nomear Miguel Ângelo, Alberto Dürer e Rafael Sânzio em conjunto, apenas em dois versos (também para aí enaltecer o conjunto dos artistas portugueses), segue logo para o conjunto dos versos que acima transcrevemos. Exactamente na sequência de Miguel Ângelo, Dürer e Rafael, e imediatamente antes de se referir às grandes obras de arquitectura (também Artes plásticas) que se fizeram em Lisboa.

      De facto quando se diz que são mui novas invenções, mui eloquentes, com mais graça e sobretudo, com mais doutrina, quer dizer que é algo de novo, inventado de novo, não é, ou não corresponde, a uma tradição, e quando se diz, muito eloquentes, quer dizer que não está feito de leitura fácil, e que apenas uma elite terá acesso à sua compreensão, com mais graça, quererá dizer que não se resume à graça habitual, vai além disso, e mais doutrina, pois como devia ser evidente, todas as suas obras têm mais conteúdo, mais valores, valores mais altos naquilo que transmitem, mais que quaisquer outras do seu tempo… E todos estes valores, invenção, eloquência, graça e doutrina numa escala que Garcia de Resende coloca acima de todos do seu tempo, de qualquer país do planeta a que se refere, pois o conteúdo da sua Miscelânea são os acontecimentos mais excepcionais do seu tempo (1470-1536), pois foi essa tarefa a que se propôs nesta sua obra.
      Repare-se como estas palavras de Garcia de Resende contradizem a concepção criada, ainda hoje amplamente divulgada pelas enciclopédias e pela história do teatro e da literatura portuguesa, e que esta, apesar de tudo, nunca negou uma certa invenção e originalidade a Gil Vicente.

                                -  [*]  -
Frontspício do Livro das Obras
Frontspício do Livro das Obras
Monday, November 21, 2016

        Acreditamos que, como o Preâmbulo, este "Epitáfio", também foi escrito por Gil Vicente para ser colocado na Copilaçam, embora, como no caso do preâmbulo, isso não tenha ficado expresso nem pelo autor nem por seu filho Luís Vicente.
       O sentido dos versos, como o que eles encerram, insere-se no estilo que encontramos em toda a sua obra, e que aqui completam o sentido do preâmbulo para abrir o livro das obras, como frontispício, uma chave que é deixada ao leitor para abrir e ler o Livro. Portanto, torna-se claro que Gil Vicente toma o Livro das Obras como sendo a sua Sepultura, onde jaz o seu espírito.



Sepultura de Gil Vicente

O grã juízo esperando,
jazo aqui, nesta morada
também da vida cansada,
descansando.


Pergunta-me quem fui eu,

atenta bem para mi,
porque tal fui, como a ti,
e tal hás de ser como eu.

E pois, tudo a isto vem,
ó leitor de meu conselho
toma-me por teu espelho,
olha-me, e olha-te bem.


      Outro intelectual do seu tempo, João de Barros (1496-1570), que em 1532, manifestando-se  sobre as ideologias da época, de certo erasmismo então em voga e dos seus aruatos, já afirmava que, o Homem, - com o objectivo de enganar (explorar) os seus semelhantes (escreve em Rópica Pnefma), o sol vendia se estivesse ao seu alcance - de tudo o que alcança no mundo quer fazer mercadoria. Assim, pelas palavras de João de Barros: Coisa alguma há no mundo fora de mercadoria?

      Em 1532, escrevendo Ropicapnefma, - Mercadoria espiritual - João de Barros fala pelo Entendimento que, aliádo à Vontade e ao Tempo, enfrenta a Razão. Enquanto protagonistas da disputa entre a Razão e o Entendimento, são personagens do diálogo: a RAZÃO (o Poder / Saber), e contra ela estão o ENTENDIMENTO, a VONTADE e o TEMPO.
      Diz João de Barros que se formou na Corte portuguesa, e que…  

      [Entendimento]: Sei mais o que me deu a Natureza e o Paço, que eu mais estimo, por ser um saber galante e cortesão, não ganhado ao fumo da candeia do escolar, porque tem outras priminências naturais e não abachereladas.
      [Razão]: Que preminências?
      [Entendimento]: Não, mau vocábulo é este, ainda me isto ficou do estudo; não é o termo cortesão priminências: primores quisera dizer.
      [Razão]: Bem, a que chamas tu primores? Não é termo derivado do latim como priminências?
      [Entendimento]: Ó que especial cousa! Há de se comparar a doçura e graça de um vocábulo ao outro? Isto são passos substanciais para homens de arte e de muito preço. Que farias já se visses o modo da Corte no falar, no escrever e no vestir, quando somente de um termo loução te espantas? Como se achariam enleados Demóstenes e Túlio [Cícero], se lhe dessem uma carta de um homem destes especiais da corte? Parece-te, quando viesse ao subscrito, por mais copiosas que a língua grega e latina fossem, achariam vocábulos conformes a sua qualidade? Se soubesses que cousa é entrar ou atravessar uma casa, com despejo e ar do corpo, sem pôr a mão pelo cabelo ou bulir com as luvas, e quanta desenvoltura tem o que sabe cometer uma mó de homens especiais e de respeito, partes essenciais do Paço, eu te afirmo que julgarias poder trinchar a um rei quem acertar a junta dum subscrito dos de agora. (...) Para que melhor entendas quem eu sou e noutra hora não faças de mim tão torpes comparações como fizeste, deixo as letras à parte, e venho ao puro e natural saber, ganhado por sangue e conversação com homens especiais e de grandes qualidades. (...)

Nota:  Sobre o significado da importância social da expressão trinchar a um rei, pode e deve ler O Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdão, contemporâneo de Gil Vicente e de Barros. 

      O homem de arte, especial da Corte portuguesa, a que João de Barros se refere em 1532, é Gil Vicente - homem da arte retórica - que havia pouco tempo tinha estado em Santarém (1531) ao serviço de el-rei, para acalmar a população enfurecida contra os cristãos-novos (judeus e mouros). No texto, que transcrevemos, João de Barros coloca Gil Vicente a par, ou mesmo acima, de Demóstenes (grego) e de Cícero (romano), considerados na época os maiores expoentes na retórica.
      Sabemos que se refere a Gil Vicente porque João de Barros escreveu na sua Gramática da Língua portuguesa (1539) dizendo que foi ele quem mais e melhor tratou a língua portuguesa... E Gil Vicente cómico [ comediógrafo ] que a mais tratou em composturas [ composições ] que alguma pessoa destes reinos...

      Se quanto às atitudes, à retórica e ao domínio de uma assembleia João de Barros coloca Gil Vicente acima de Demóstenes e de Cícero, quando à poesia, ao pensamento e amplitude do saber, Gil Vicente, sendo o único autor português referenciado, é apresentado pelo autor do Diálogo em louvor da nossa linguagem (ainda na sua Garmática), entre Virgílio e Aristóteles...
      Nesta gravidade (como já disse) a [língua] Portuguesa leva a todas, e tem em si uma pureza e sequidão para cousas baixas, que se lhe pode por a tacha que Pérsio [Aulo Persio Flaco] (na Sátira primeira) punha aos versos de Virgílio: os quais dizia serem tão de severo e cobertos de casca, que se não podiam abrandar. Pero, com aquela majestade e alteza, falou no quarto de sua “A Eneida” tão alta e mimosamente do amor, que lhe não chegaram as guarredices de Ovídio, e as doçuras de Petrarca, que nestes brincos muito se esmeraram.
       Foi o Virgílio naquele seu livro, como nestes nossos tempos O Queguem
[Johannes Ockeguem, 1410-1497] em a compostura [ composição ] da música: todas as excelentes consonâncias achou, depois Jusquim [Josquin des Près,
1440-1521] e outros compoedores [ compositores ] que vieram, sobre elas fizeram sua diminuição e contraponto. A linguagem Portuguesa, que tenha esta gravidade, não perde a força para declarar, mover, deleitar, e exortar a parte a que se inclina: seja em qualquer género de escritura. Verdade é ser em si tão honesta e casta: que parece não consentir em si uma tal obra como Celestina.
      E Gil Vicente cómico
[ comediógrafo ] que a mais tratou em composturas [composições] que alguma pessoa destes reinos, nunca se atreveu a introduzir um Centúrio Português [ organização e ordem ]: porque como o não consente a Nação, assim o não sofre a linguagem. Certo, a quem não falecer matéria e engenho para demonstrar sua tenção, em nossa linguagem não lhe falecerão vocábulos. Porque, de crer é que, se Aristóteles fora nosso natural, não fora buscar linguagem emprestada para escrever na filosofia, e em todas as outras matérias que tratou.
      O ponto mais alto deste elogio, para além do paralelismo com as grandes figuras da cultura greco-romana, poetas, retóricos, historiadores, filósofos, junto com a afirmação de que Gil Vicente foi o maior destes reinos no tratamento e uso da Língua, o maior elogio, como dizíamos, é sem dúvida a sua conclusão: porque nunca lhe faltou matéria e engenho para demonstrar sua tenção, para demonstrar tudo aquilo que bem quis…
A Língua é um meio, sem dúvida o melhor veículo de comunicação, contudo, com ela e para além dela, é necessário e fundamental, a matéria, o engenho e o saber, a arte para se demonstrar o que se quer - e com a intenção de o fazer.
                                 -  [*] -


    Sem uma razoável compreensão das obras de Platão, ainda hoje consideradas pelos especialistas muito herméticas, não será possível avançar na teoria da Arte, nem no esclarecimento dos processos criativos do pensamento, nem numa exposição mais clara de um pensamento figurativo.
     Contudo, Gil Vicente compreendeu bem o filósofo grego - pois, tal como o filósofo grego construiu o seu discurso pela retórica do drama, construindo em cada diálogo, uma acção dramática, baseada na História, com a definição de lugar e tempo da acção - também o fez o dramaturgo da Corte portuguesa, seguindo do mesmo modo a regra de ouro de Platão nas suas obras:
     ... dispondo e ordenando em conformidade o seu discurso, oferecendo à alma complexa discursos complexos e com toda a espécie de harmonias, e simples à alma simples.
    
[ Platão,
em Fedro (277c) ]

     Por isso as obras de Gil Vicente, como as de Platão, são de extrema importância para a teoria da Arte nos seus fundamentos. Contudo, antes de se avançar numa teoria da Arte é necessário e indispensável conhecer e compreender as obras de Arte, e ir mais além da forma aparente (das sombras, espectros) que povoam o universo figurativo de uma obra de Arte.

    Este tem sido o objectivo do nosso trabalho.

    (Noémio Ramos)



   
Publicações recentes:

     Em Julho e Agosto de 2017 publicámos nove livros, abrangendo dez peças de teatro de Gil Vicente.

Aderência do Paço, ...da Arcádia ao Paço.
Frágua de Amor, ...a mercadoria de Amor.
Feira (das Graças), ...da Banca Alemã.
Os Físicos, ...e os amores d'el-rei.
Vida do Paço, ...a educação da Infanta e o rei.
Pastoril Português, Os líderes na Arcádia.
Inês Pereira, As Comunidades de Castela.
Tragédia Dom Duardos, O príncipe estrangeiro.
Regateiras de Lisboa
O Velho da Horta, 2ª Edição

   
Em 2016 publicámos as peças Auto dos Reis Magos e Auto dos Quatro Tempos (ambas de 1503) ... Com a análise destas peças apresentámos também algumas considerações sobre a influência da vida e obras italianas nestas peças. Pronunciámo-nos ainda sobre o Auto de la Pasión de Lucas Fernández.

    Em 2014 publicámos a peça de Gil Vicente de 1502, Auto Pastoril Castelhano, com a análise completa da peça e alguns comentários. Também apresentámos breves indicações sobre Reis Magos e Sepultura de Gil Vicente.

    Em 2013 publicámos a peça de Gil Vicente de 1515, Exortação da Guerra, com a análise completa da peça e alguns comentários. Apresentámos também breves abordagens do Auto da Fama (1514) e da Oração Miserere Mei, de 1516/1517.

   Em 2012 publicámos mais duas peças de Gil Vicente, de 1526 e de 1527, com a análise e comentários. Nestas publicações encontra ainda algumas análises sobre outras peças de data próxima, assim:
   1526: (1) Templo de Apolo; (2) Comédia sobre a divisa da cidade de Coimbra - ou Tragédia de Liberata; (3) Farsa das Ciganas; (4) Clérigo da Beira - ou Pedreanes.
   1527: ... (2) Escrivães do Pelourinho - (Feira da Ladra).


     Estudar a obra de Gil Vicente, hoje, implica cortar pela raiz com uma tradição iniciada há mais de século e meio, - uma tradição iniciada com o romantismo - uma tradição que se desenvolveu estratificando-se sob as ideias românticas. Consequência de uma subordinação, quase primária, às ideias expostas pelos académicos da época em que as obras de Gil Vicente começaram a ser estudadas. O romantismo preferiu o medievalismo como modelo e, como tal, assim leu as obras de Gil Vicente. E, em consequência de cadeias de citações de citações, num diz-se diz-se a lembrar a velha escolástica medieval, - e mais ainda com a vassalagem sempre devida aos eminentes académicos - assim se reproduziram e mantiveram os estudos vicentistas, assim se divulgaram centenas de doutoramentos expondo os saberes sobre Gil Vicente e o seu teatro.

      Assim, Gil Vicente soube ler, compreender e fazer uso da retórica (retórica poética - drama - como então era entendida, seguindo Platão) como, por exemplo, podemos ler no Fedro, onde Platão apresenta as suas ideias sobre o discurso retórico:
     …afirmámos precisamente que o verosímil consegue surgir no espírito da maioria, devido à sua semelhança com a verdade. E as semelhanças, referimo-lo há pouco, quem conhece a verdade, melhor as sabe descobrir por toda a parte (…) Se uma pessoa não puder fazer a lista completa das diversas naturezas de quem o vai escutar, se não for capaz de dividir os seres segundo as suas espécies e de reduzir cada uma des­sas espécies a uma só ideia, jamais será um bom técnico da oratória, dentro do que é possível ao homem. E este resultado não o pode adquirir nunca sem muita aplicação, que quem for sensato deve exercitar, não com vista a falar e conviver com os homens, mas para se tornar capaz de uma linguagem e duma conduta que sejam do agrado dos deuses, até onde lhe for possível. Na verdade (...), quem tem inteligência não deve esfor­çar-se por agradar aos companheiros de escravidão, a não ser a título acessório, mas aos amos que sejam bons e de boa origem. (274a) Deste modo, a lonjura do circuito não te deve causar admiração. E por uma finalidade sublime se deve fazer esse desvio, e não pelo que tu pensas. No entanto, como sustenta a nossa tese, desde que se queira, também essas finalidades menores se tornarão mais belas, graças às superiores. (...)
Em primeiro lugar que se conheça a verdade sobre os assuntos de que se fala ou escreve; que se seja capaz de definir cada um deles em si mesmo; uma vez definido, que se saiba dividi-lo de novo em espécies, até atingir o indivisí­vel; que, a respeito da natureza da alma, se encontre depois de a analisar do mesmo modo, para cada uma a forma apropriada e, em seguida, se disponha e ordene em conformidade o discurso,
(277c) oferecendo à alma complexa, discur­sos complexos e com toda a espécie de harmonias, e simples, à alma simples...
    
      Sublinámos estas últimas palávras, por serem as que melhor reflectem toda a obra dramática de Gil Vicente.

                                -  [*]  -

      Recordamos palavras de Platão (no Fedro) referindo-se ao discurso retórico quando compara o sábio agricultor, com aquele que sabe escrever o dis­curso vivo e animado, aquele homem que, nos jardins da escrita, segundo parece, semeia e escreve por divertimento, e sempre que escreve, entesoura recordações para si… (276d).

      E as palavras de Gil Vicente no Preâmbulo (carta ao rei): Pois rústico peregrino de mim, que espero eu? Livro meu, que esperas tu? Porém [por isso] te rogo que, quando o ignorante malicioso te repreender, que lhe digas: Se meu Mestre aqui estivera, tu calaras.

      Voltando ao mesmo texto de Platão [Sócrates] ...(276a) há um outro discurso, seu irmão legítimo... Aquele que com sabedoria se escreve na alma do discente, esse é capaz de se defender a si próprio e sabe falar e ficar silencioso diante de quem convém. [Fedro] Referes-te ao discurso de quem sabe, o discurso vivo e animado, de que o escrito se poderia considerar justamente uma imagem? [Sócrates] Absolutamente!...

- Livros publicados no âmbito desta investigação, da autoria de Noémio Ramos:

(2017)  - Gil Vicente, Aderência do Paço, ...da Arcádia ao Paço.
(2017)  - Gil Vicente, Frágua de Amor, ...a mercadoria de Amor.
(2017)  - Gil Vicente, Feira (das Graças), ...da Banca Alemã (Fugger).
(2017)  - Gil Vicente, Os Físicos, ...e os amores d'el-rei.
(2017)  - Gil Vicente, Vida do Paço, ...a educação da Infanta e o rei.
(2017)  - Gil Vicente, Pastoril Português, Os líderes na Arcádia.
(2017)  - Gil Vicente, Inês Pereira, As Comunidades de Castela.
(2017)  - Gil Vicente, Tragédia Dom Duardos, O príncipe estrangeiro.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Quatro Tempos, Triunfo do Verão - Sagração dos Reis Católicos.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Reis Magos, ...(festa) Cavalgada dos Reis.
(2014)  - Gil Vicente, Auto Pastoril Castelhano, A autobiografia em 1502.
(2012)  - Gil Vicente, Tragédia de Liberata, do Templo de Apolo à Divisa de Coimbra.
(2012)  - Gil Vicente, O Clérigo da Beira, o povo espoliado - em pelota.
(2010)  - Gil Vicente, Carta de Santarém, 1531 - Sobre o Auto da Índia.
             - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura" 
(2ª Edição, 2017)
(2010)  - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura".
(2010)  - Gil Vicente, Auto da Visitação. Sobre as origens.
(2008)  - Gil Vicente e Platão - Arte e Dialéctica, Íon de Platão.
             - Gil Vicente, Auto da Alma, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II... 
(2ª Edição, 2012)
(2008)  - Auto da Alma de Gil Vicente, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II...

- Outras publicações:
(2003) - Francês - Português, Dicionário do Tradutor. - Maria José Santos e A. Soares.
(2005) - Os Maios de Olhão e o Auto da Lusitânia de Gil Vicente. - Noémio Ramos.

  (c) 2008 - Sítio dedicado ao Teatro de Gil Vicente - actualizado com o progresso nas investigações.

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